Por que as renas puxam o trenó do Papai Noel? Conheça a origem da tradição
Ainda faltam alguns meses para o Natal, mas, lá no norte da Finlândia, as renas já fazem parte da rotina dos visitantes. Em Rovaniemi, cidade da Lapônia fortemente associada à figura do Papai Noel, é possível encontrar esses animais durante boa parte do ano. A cena parece ter saído diretamente de um cartão de Natal. E daí surge uma pergunta aparentemente muito simples: qual é o animal que, segundo a tradição natalina, puxa o trenó do Papai Noel?
Resposta correta: B) Rena.
Na tradição moderna do Natal, o trenó do Papai Noel é puxado por
renas. A associação se consolidou principalmente durante o século XIX
e ganhou novos personagens no século XX.
A resposta é conhecida até por quem nunca viu uma rena de verdade. Basta aparecer um trenó, neve e um senhor barbudo vestido de vermelho que dificilmente alguém imagina um cavalo, um touro ou um jumento à frente do veículo. Na cultura natalina contemporânea, esse lugar pertence quase automaticamente às renas.
O mais interessante é que essa associação não surgiu por acaso. As renas são animais reais do extremo norte do planeta e foram utilizadas durante séculos como animais de transporte por populações das regiões árticas e subárticas da Europa e da Ásia.
Portanto, antes de existirem renas voadoras na literatura infantil, já existiam renas puxando trenós de verdade.
Atualmente, essa relação continua bastante visível na Lapônia. O Santa Claus Village, em Rovaniemi , mantém experiências com renas durante diferentes períodos do ano e, no inverno, oferece inclusive passeios de trenó puxado por esses animais.
Claro que as renas dali não saem voando na noite de 24 de dezembro. Essa parte fica por conta da tradição. Mas o animal escolhido para protagonizar a história faz bastante sentido quando observamos onde ele vive e como foi utilizado historicamente.
A rena pertence à espécie Rangifer tarandus, da família dos cervídeos — a mesma grande família de veados, cervos e alces. Na América do Norte, populações selvagens desse mesmo animal são geralmente chamadas de caribus. Na Europa, o nome rena é muito mais comum.
Trata-se de um animal extraordinariamente adaptado ao frio. Sua pelagem de inverno é muito densa e possui pelos que ajudam a aprisionar ar, funcionando como um eficiente isolamento térmico.
E não é só o casaco natural que impressiona.
As patas também são adaptadas para ambientes cobertos de neve. Os cascos largos ajudam a distribuir o peso e permitem que a rena se desloque em terrenos nos quais outros animais teriam muito mais dificuldade. Durante o inverno, elas ainda utilizam os cascos para escavar a neve em busca de alimento.
Segundo a Reindeer Herders' Association da Finlândia , uma das capacidades mais importantes desses animais é o olfato. As renas conseguem localizar líquens mesmo quando o alimento está escondido sob uma camada de neve.
Ou seja, se alguém fosse escolher um animal terrestre para atravessar uma paisagem congelada carregando um trenó, a rena não seria exatamente uma escolha absurda.
Rena e caribu são animais diferentes? Não exatamente. Os dois nomes são utilizados para animais da espécie Rangifer tarandus. Na América do Norte, costuma-se chamar de caribu os animais selvagens e de rena aqueles associados à domesticação; na Europa, “rena” é a denominação mais utilizada.
Mas quando as renas entraram para a história do Papai Noel?
Para responder, precisamos voltar aos Estados Unidos do início do século XIX, época em que várias características do Papai Noel que conhecemos atualmente ainda estavam sendo construídas.
Uma referência importante apareceu em 1821, em uma publicação infantil intitulada A New-Year's Present, to the Little Ones from Five to Twelve. Nela, o poema Old Santeclaus with Much Delight apresentava a figura de Santa Claus viajando em um trenó puxado por uma rena.
Dois anos depois apareceu um texto que teria influência ainda maior: A Visit from St. Nicholas, publicado anonimamente em um jornal de Nova York em 1823 e posteriormente atribuído a Clement Clarke Moore, embora sua autoria tenha sido objeto de debate.
O poema tornou-se popularmente conhecido pelo começo The Night Before Christmas e ajudou a fixar diversas características da imagem moderna do Papai Noel.
Entre elas estava justamente seu meio de transporte.
O texto descrevia um pequeno trenó conduzido por oito renas. Mais do que isso: os animais receberam nomes.
A tradição consolidou nomes que hoje aparecem em inglês como Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzen.
A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos preserva exemplares históricos do poema e destaca sua importância para a tradição natalina norte-americana.
Quem estiver contando, porém, pode ter percebido algo estranho: são oito renas. E Rudolph?
Pois é. Rudolph não fazia parte do grupo original.
A rena do nariz vermelho surgiu mais de um século depois.
Em 1939, o escritor Robert L. May trabalhava para a rede de lojas Montgomery Ward, nos Estados Unidos. Ele recebeu a tarefa de produzir uma história infantil que pudesse ser distribuída pela empresa durante o período natalino.
Foi assim que surgiu Rudolph the Red-Nosed Reindeer.
A ideia era simples e bastante eficiente: Rudolph era uma jovem rena ridicularizada pelas demais por possuir um nariz vermelho e brilhante. Em uma noite de pouca visibilidade, justamente aquilo que o tornava diferente passava a ser sua maior vantagem, pois seu nariz ajudaria a iluminar o caminho do trenó.
O Museu Nacional de História Americana, do Smithsonian , conserva exemplares da publicação original e registra que mais de dois milhões de cópias do livreto foram distribuídas já no primeiro ano.
A história ficaria ainda mais famosa dez anos depois.
Em 1949, Johnny Marks, cunhado de Robert May, transformou a narrativa em uma canção. A gravação realizada por Gene Autry tornou Rudolph the Red-Nosed Reindeer um enorme sucesso e ajudou a colocar definitivamente a rena de nariz vermelho na cultura popular.
Foi assim que, para muita gente, as tradicionais oito renas passaram praticamente a ser nove.
Existe, aliás, uma curiosidade científica bastante divertida escondida nas ilustrações natalinas.
Ao contrário da maioria das espécies de cervídeos, tanto os machos quanto as fêmeas das renas normalmente desenvolvem galhadas.
Os machos costumam perder suas galhadas depois do período reprodutivo, no final do outono ou começo do inverno. As fêmeas, por outro lado, geralmente permanecem com as suas durante o inverno e só as perdem próximo ao período de nascimento dos filhotes, na primavera.
Agora olhe para qualquer desenho tradicional do trenó do Papai Noel: quase todas as renas estão com grandes galhadas na cabeça em pleno 24 de dezembro.
Isso levou cientistas e instituições zoológicas a fazerem uma brincadeira bastante conhecida: se aquelas renas obedecessem exatamente ao ciclo biológico dos animais reais, várias delas poderiam muito bem ser fêmeas.
A Food and Drug Administration dos Estados Unidos explica justamente essa diferença no ciclo anual das galhadas de machos e fêmeas.
Não significa, evidentemente, que precisamos agora corrigir todos os filmes natalinos e trocar os nomes das personagens. Estamos comparando animais reais com criaturas de uma tradição literária fantástica. Mas é uma ótima oportunidade para usar uma história conhecida como ponto de partida para aprender Biologia.
E já que falamos em Rudolph, existe outra surpresa.
A ideia de uma rena com o nariz avermelhado não é tão biologicamente absurda quanto parece.
Pesquisadores observaram que o focinho das renas possui uma rede muito densa de pequenos vasos sanguíneos. Essa circulação ajuda na regulação de temperatura em condições extremas e pode contribuir para uma aparência avermelhada do nariz.
Isso obviamente não significa que exista uma rena com um farol vermelho capaz de iluminar o céu. Essa continua sendo a parte fantástica da história. Mas a ciência conseguiu encontrar um pequeno ponto de contato curioso entre a anatomia real do animal e o personagem criado em 1939.
Outra característica impressionante das renas é sua relação histórica com seres humanos no norte da Europa.
Povos do Ártico desenvolveram ao longo do tempo diferentes relações com esses animais. Entre os Sámi, povo indígena presente em áreas que hoje pertencem à Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia, a criação de renas tornou-se uma atividade cultural e econômica de grande importância.
Pesquisas arqueológicas realizadas pela Universidade de Oulu, na Finlândia , mostram que a história do pastoreio de renas entre populações Sámi é antiga e passou por transformações significativas ao longo dos séculos.
Há inclusive evidências arqueológicas do uso de renas como animais de tração na Fennoscândia a partir de aproximadamente 1300.
Isso nos ajuda a entender melhor como nasceu a imagem natalina.
O Papai Noel foi gradualmente associado às regiões geladas do extremo norte. A rena, por sua vez, já era um animal adaptado justamente a esses ambientes e possuía uma história real de utilização no transporte de pessoas e cargas.
Literatura e realidade acabaram se encontrando.
Depois, ilustradores, escritores, músicos, anunciantes e cineastas fizeram o resto do trabalho. Ao longo dos séculos XIX e XX, a imagem se tornou tão conhecida que hoje parece ter existido desde sempre.
Então as renas realmente puxam trenós? Sim. Renas domesticadas foram e continuam sendo utilizadas para tração em regiões do norte da Europa e da Ásia. O que pertence à fantasia natalina é a capacidade de voar e percorrer o mundo inteiro em uma noite.
Há também um detalhe interessante na relação entre o Papai Noel e o chamado Polo Norte.
A figura histórica que está em uma das origens do personagem natalino, São Nicolau, viveu na região da atual Turquia, muito longe do Ártico. A associação do Papai Noel com o extremo norte foi sendo construída posteriormente.
No século XIX, ilustradores como Thomas Nast ajudaram a consolidar a ideia de que a residência e a oficina do personagem ficavam no Polo Norte. Uma vez colocado o Papai Noel nesse cenário gelado, as renas ficaram ainda mais à vontade na história.
Hoje, a cidade finlandesa de Rovaniemi explora culturalmente essa tradição e é apresentada turisticamente como a “cidade oficial do Papai Noel”. O calendário oficial do Santa Claus Village para 2026 mostra que atrações envolvendo Papai Noel e renas funcionam inclusive fora de dezembro.
É um ótimo exemplo de como uma tradição pode atravessar literatura, publicidade, música, cinema e turismo até se tornar parte de uma cultura compartilhada por pessoas de vários países.
E existe até uma tradição tecnológica bastante curiosa envolvendo o famoso trenó.
Desde a década de 1950, o NORAD, comando aeroespacial da América do Norte, mantém no período natalino uma brincadeira em que “acompanha” o percurso do Papai Noel ao redor do mundo. A tradição começou depois de um episódio envolvendo um número de telefone divulgado incorretamente em uma campanha de Natal e acabou se transformando no conhecido Santa Tracker.
O National Air and Space Museum, do Smithsonian , conta a história dessa tradição, que acabou levando a velha imagem do trenó e das renas para a era dos radares, satélites e internet.
Veja como a pergunta foi longe.
Começamos simplesmente tentando descobrir qual animal puxa o trenó do Papai Noel e acabamos passando pela zoologia do Ártico, pela história dos povos do norte da Europa, pela literatura norte-americana do século XIX e até pela cultura de massa do século XX.
Portanto, se a pergunta aparecer novamente — “Qual é o animal que puxa o trenó do Papai Noel?” — a resposta correta é B) Rena.
Mas agora você pode responder algo a mais: as renas são animais reais, extremamente adaptados às regiões frias do hemisfério norte e historicamente utilizados para tração. Sua entrada definitiva na tradição natalina ocorreu principalmente a partir da literatura norte-americana do século XIX.
E Rudolph? Ele chegou depois, em 1939. Afinal, até as tradições que parecem muito antigas continuam ganhando novos personagens pelo caminho.
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Referências
- LIBRARY OF CONGRESS. Today in History — December 24: A Visit from St. Nicholas. Material sobre o poema tradicionalmente atribuído a Clement Clarke Moore e sua importância para a formação da imagem moderna de São Nicolau/Papai Noel. Disponível em: Library of Congress .
- LIBRARY OF CONGRESS. A Visit from St. Nicholas. Exemplar histórico digitalizado da obra associada à popularização do trenó puxado por renas. Disponível em: Library of Congress .
- SMITHSONIAN — NATIONAL MUSEUM OF AMERICAN HISTORY. Rudolph the Red-Nosed Reindeer Turns 75. História da criação de Rudolph por Robert L. May em 1939 e de sua posterior transformação em um ícone da cultura natalina. Disponível em: Smithsonian .
- SMITHSONIAN MAGAZINE. The Scientific Reason Why Reindeer Have Red Noses. Material sobre a vascularização do nariz das renas e as adaptações fisiológicas desses animais às baixas temperaturas. Disponível em: Smithsonian Magazine .
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION — FDA. Fun Facts about Reindeer and Caribou. Informações sobre Rangifer tarandus, galhadas, cascos, alimentação, olfato e diferenças de nomenclatura entre rena e caribu. Disponível em: FDA .
- REINDEER HERDERS' ASSOCIATION. Reindeer — Rangifer tarandus tarandus. Informações sobre anatomia, comportamento, pelagem, alimentação, cascos e adaptações das renas ao clima ártico. Disponível em: Reindeer Herders' Association .
- REINDEER HERDERS' ASSOCIATION. Reindeer and Winter. Material sobre alimentação durante o inverno, uso das galhadas e procura de líquens sob a neve. Disponível em: Reindeer Herders' Association .
- UNIVERSITY OF OULU. Ancient DNA shows how reindeer pastoralism spread 500 years ago. Pesquisa sobre a história da domesticação e do pastoreio de renas entre populações Sámi no norte da Fennoscândia. Disponível em: University of Oulu .
- SALMI, Anna-Kaisa et al. Earliest archaeological evidence for domesticated reindeer economy among the Sámi of Northeastern Fennoscandia AD 1300 onwards. Estudo arqueológico sobre evidências do emprego de renas de tração. Disponível em: OuluREPO — University of Oulu .
- SMITHSONIAN — NATIONAL AIR AND SPACE MUSEUM. Why NORAD Tracks Santa Claus. História da tradição do acompanhamento do trenó do Papai Noel pelo NORAD desde a década de 1950. Disponível em: National Air and Space Museum .
- SANTA CLAUS VILLAGE. Santa Claus Reindeer. Informações atuais sobre as atividades com renas realizadas em Rovaniemi, na Lapônia finlandesa. Disponível em: Santa Claus Village .
- CIRANDA CULTURAL. O Magnífico Livro dos Animais Polares. García Nieto, Eliseo. Livro ilustrado dedicado aos animais das regiões árticas e antárticas. Disponível em: Ciranda Cultural .

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