Por que 1º de abril é o Dia da Mentira? Conheça a origem da tradição

Por que 1º de abril é o Dia da Mentira? Conheça a origem da tradição

Hoje basta abrir uma rede social para perceber que descobrir se alguma coisa é verdadeira ou falsa ficou um pouco mais complicado. Fotografias podem ser alteradas, vídeos podem ser produzidos por inteligência artificial e uma informação inventada pode atravessar milhares de celulares em poucos minutos. É curioso pensar nisso quando lembramos que existe um dia do calendário dedicado justamente às brincadeiras com aquilo que não é verdade. Mas você sabe quando é comemorado o Dia da Mentira no Brasil?

Resposta correta: C) 1º de abril.
No Brasil e em diversos outros países, o primeiro dia de abril é tradicionalmente conhecido como Dia da Mentira, Dia dos Bobos ou, em inglês, April Fools' Day.

A resposta é bastante conhecida. Quem cresceu no Brasil provavelmente já ouviu alguma notícia absurda em 1º de abril e, alguns segundos depois, recebeu a clássica explicação: “é mentira, primeiro de abril!”.

O que talvez seja menos conhecido é a história por trás dessa tradição. E aqui aparece uma situação interessante: temos uma data dedicada às mentiras cuja própria origem está cercada por histórias que nem sempre conseguimos comprovar.

Parece apropriado, não?

Antes de procurar a origem, vale deixar uma coisa clara. O Dia da Mentira não é um feriado nacional brasileiro. Trata-se de uma tradição cultural popular associada ao dia 1º de abril. Em 2026, por exemplo, a Agência Brasil incluiu o Dia da Mentira entre as efemérides de 1º de abril, ao lado de outras datas lembradas naquele mês.

A tradição também está longe de ser exclusivamente brasileira. Nos países de língua inglesa, o primeiro de abril é conhecido como April Fools' Day, algo que poderíamos traduzir aproximadamente como “Dia dos Tolos de Abril”.

Na França, encontramos a expressão poisson d'avril, ou “peixe de abril”. Uma das brincadeiras tradicionais francesas consiste justamente em tentar colocar discretamente um peixe de papel nas costas de outra pessoa.

Só que, quando perguntamos quem inventou tudo isso, a resposta deixa de ser tão simples.

A Library of Congress, dos Estados Unidos , que investigou as raízes folclóricas da comemoração, é bastante cuidadosa: não sabemos com certeza onde o Dia da Mentira começou.

Existem várias hipóteses, algumas bastante antigas.

Uma delas tenta relacionar a tradição a festas realizadas na Antiguidade, como a Hilaria romana, celebração ligada ao período próximo ao equinócio da primavera no hemisfério norte. Outras teorias procuram ligações com festas medievais nas quais as regras sociais eram temporariamente invertidas e o humor ocupava espaço importante.

O problema é que não existem evidências suficientes para construir uma linha direta entre essas celebrações e o atual 1º de abril.

Isso é importante para quem gosta de História: encontrar duas tradições parecidas não significa automaticamente que uma deu origem à outra.

Cuidado com uma explicação muito repetida: você provavelmente já leu que o Dia da Mentira nasceu porque algumas pessoas continuaram comemorando o Ano Novo no fim de março e início de abril depois de uma mudança no calendário francês. Essa é uma hipótese popular, mas sua relação direta com a origem do 1º de abril não está historicamente demonstrada.

A história normalmente aparece assim: durante o século XVI, mudanças na maneira de marcar o início do ano teriam levado parte da população francesa a continuar celebrando a passagem de ano na antiga época. Essas pessoas teriam sido ridicularizadas por outras, recebendo convites para festas inexistentes e presentes falsos.

É uma narrativa interessante e aparece até hoje em inúmeros textos sobre a data. Só existe um problema: quando os historiadores procuram documentos capazes de comprovar cada etapa dessa história, as coisas ficam bem menos organizadas.

A própria Library of Congress trata essa explicação como uma espécie de lenda sobre a origem da tradição, e não como um fato historicamente estabelecido.

Isso não quer dizer que a hipótese seja impossível. Quer dizer apenas que precisamos fazer aquilo que toda boa investigação histórica exige: separar aquilo que sabemos por meio de documentos daquilo que é uma interpretação possível.

E temos documentos antigos sobre brincadeiras de primeiro de abril.

Uma das referências seguras mais antigas identificadas pelos pesquisadores aparece em 1561, em um poema escrito em flamengo por Eduard De Dene.

Na obra, um homem manda seu criado realizar uma série de tarefas inúteis e absurdas no dia 1º de abril. O empregado percebe que está sendo enviado para aquilo que hoje chamaríamos de uma “missão impossível” apenas para servir de brincadeira.

A cena é interessante porque ainda encontramos exatamente o mesmo tipo de pegadinha séculos depois: mandar alguém procurar um objeto que não existe, buscar uma pessoa imaginária ou cumprir uma tarefa impossível.

Em outras palavras, algumas brincadeiras envelhecem surpreendentemente bem.

Em 1686, o antiquário inglês John Aubrey também registrou a expressão Fooles Holy Day, algo próximo de “dia sagrado dos tolos”, observando que a tradição era realizada em primeiro de abril.

Já no século XVIII existem registros da celebração em diferentes lugares da Europa e da América do Norte. Durante o século XIX, a prática tornou-se ainda mais difundida e começou a aparecer com frequência nos jornais.

E aí a brincadeira ganhou uma nova dimensão.

Até então, muitas pegadinhas dependiam de uma pessoa enganar outra: um convite falso, uma informação inventada, um objeto inexistente. Com a expansão dos jornais, uma única brincadeira poderia enganar milhares de leitores ao mesmo tempo.

É praticamente um ancestral das pegadinhas virais da internet.

A coleção de jornais históricos da Library of Congress mostra que, no final do século XIX, publicações norte-americanas já apresentavam com frequência brincadeiras e histórias relacionadas ao April Fools' Day.

E no Brasil?

Um episódio frequentemente apresentado como um marco para a popularização da tradição brasileira aconteceu em Pernambuco, em 1848.

Naquele ano começou a circular um periódico chamado A Mentira. Sua primeira edição teria sido publicada justamente em 1º de abril e trazia uma notícia bastante impactante: a morte do imperador Dom Pedro II.

Só havia um pequeno detalhe: o imperador estava vivo.

A informação foi desmentida no dia seguinte. Dom Pedro II, aliás, permaneceria vivo por muitas décadas e morreria somente em 1891, depois da Proclamação da República.

O episódio do periódico pernambucano aparece em diferentes registros sobre a história brasileira do Dia da Mentira, inclusive em documentação disponível no acervo da Câmara dos Deputados e em artigo publicado pelo Observatório da Imprensa .

Há ainda uma última brincadeira atribuída ao periódico. Quando A Mentira encerrou suas atividades, em setembro de 1849, teria convocado seus credores para um acerto de contas marcado para 1º de abril do ano seguinte — em um endereço inexistente.

Pelo menos o jornal manteve a proposta editorial até o fim.

Com o tempo, o 1º de abril tornou-se uma oportunidade para pessoas, jornais, emissoras e mais tarde empresas realizarem brincadeiras deliberadamente absurdas.

Algumas entraram para a história.

Uma das mais famosas aconteceu em 1957, quando o programa britânico Panorama, da BBC, exibiu uma reportagem sobre uma suposta colheita de espaguete na Suíça.

As imagens mostravam pessoas retirando fios de macarrão de árvores, como se espaguete fosse um produto agrícola.

Para nós hoje isso parece obviamente absurdo. Mas lembre que estamos falando de uma época na qual o macarrão ainda não fazia parte do cotidiano de muitas famílias britânicas e a televisão carregava uma enorme autoridade como fonte de informação.

Muitas pessoas acreditaram.

Esse caso também mostra algo importante: uma brincadeira funciona justamente porque utiliza elementos que parecem plausíveis para determinada audiência.

E isso nos traz diretamente para o presente.

Em 2026, falar sobre mentira na internet significa entrar em um cenário muito mais complicado do que uma reportagem sobre árvores de espaguete.

Temos imagens manipuladas, vídeos sintéticos, conteúdos gerados por inteligência artificial, títulos enganosos, montagens retiradas de contexto e informações verdadeiras apresentadas de maneira capaz de produzir interpretações falsas.

Por isso, os especialistas passaram a diferenciar conceitos que no cotidiano muitas vezes colocamos no mesmo saco.

Um relatório do Conselho da Europa sobre desordem informacional propõe distinguir, por exemplo, informação incorreta e desinformação.

Na chamada misinformation, uma informação falsa é compartilhada por alguém que acredita que aquilo seja verdadeiro ou que não pretende causar dano.

Imagine uma pessoa que recebe no grupo da família uma fotografia antiga apresentada como se tivesse sido registrada naquela manhã. Ela acredita e encaminha para outras pessoas. A informação está errada, mas quem compartilhou não necessariamente pretendia enganar.

A desinformação, por outro lado, envolve a produção ou disseminação deliberada de informação falsa ou enganosa com intenção de enganar ou causar algum tipo de dano.

O Conselho da Europa ainda utiliza a categoria mal-information: informações verdadeiras que são utilizadas deliberadamente para causar dano, frequentemente retiradas do contexto em que deveriam permanecer.

Parece uma discussão de vocabulário, mas a diferença é importante.

Nem toda informação falsa é produzida pelo mesmo motivo, da mesma maneira ou com as mesmas consequências.

Mentira, brincadeira e desinformação não são exatamente a mesma coisa. Uma pegadinha de 1º de abril pressupõe um contexto lúdico e normalmente termina com a revelação da brincadeira. Já uma informação falsa que continua circulando como verdadeira pode produzir consequências muito além da diversão.

Essa diferença se tornou tão importante que a educação midiática começou a ganhar espaço também dentro das escolas.

Em 2026, o Mapa Brasileiro da Educação Midiática passou a reunir iniciativas educacionais que trabalham justamente habilidades como distinguir fato de opinião, reconhecer imagens manipuladas, identificar autoria falsa e analisar a confiabilidade de fontes.

Isso significa que aprender a ler atualmente não envolve apenas entender as palavras escritas diante de nós.

Precisamos aprender também a perguntar: quem publicou isso? Onde? Quando? Existe uma fonte original? Outros veículos confiáveis confirmam a informação? A fotografia realmente pertence ao acontecimento descrito?

Essas perguntas simples já impedem uma quantidade enorme de enganos.

Existe ainda um hábito bastante útil e que deveria acompanhar qualquer pessoa que utiliza redes sociais: não compartilhar imediatamente algo apenas porque despertou uma emoção forte.

Quanto mais surpreendente, revoltante ou inacreditável uma publicação parecer, maior deveria ser nossa disposição para verificá-la.

É quase o contrário daquilo que fazemos naturalmente.

Quando alguma informação combina exatamente com aquilo que já pensamos, nossa tendência pode ser aceitá-la com menos resistência. Quando ela confirma uma expectativa ou provoca indignação, o impulso de compartilhar também pode aparecer antes da verificação.

É aí que a leitura crítica se torna importante.

A própria Secretaria de Comunicação Social reúne, no Mapa Brasileiro da Educação Midiática, métodos de leitura crítica voltados para avaliar a credibilidade e a qualidade de reportagens, vídeos e outros conteúdos.

É uma atualização interessante para uma tradição que surgiu muitos séculos antes da internet.

No antigo primeiro de abril, a pessoa precisava desconfiar de um amigo dizendo que não haveria aula ou de um jornal anunciando alguma coisa obviamente improvável.

Agora temos de fazer isso durante os outros 364 dias também.

Isso significa que não podemos mais brincar no Dia da Mentira?

Claro que não.

Uma boa pegadinha continua sendo uma forma de humor. O importante é entender a diferença entre uma brincadeira e uma mentira capaz de produzir prejuízo.

Inventar para um colega que as aulas terminarão uma hora mais cedo e revelar imediatamente a brincadeira é uma coisa. Fazer um falso anúncio sobre uma emergência, atribuir uma declaração inexistente a uma pessoa, espalhar uma informação falsa sobre saúde ou prejudicar a reputação de alguém é completamente diferente.

A graça do primeiro de abril depende justamente da possibilidade de todos perceberem, no fim, que participaram de uma brincadeira.

Quando o engano continua funcionando mesmo depois disso, já deixamos o terreno do humor.

Talvez por isso o Dia da Mentira tenha ganhado um significado curioso no século XXI.

A data pode continuar servindo para fazer uma pegadinha inocente, mas também se tornou uma oportunidade bastante interessante para professores trabalharem checagem de informação, leitura crítica, fontes, autoria e educação midiática.

Dá até para transformar uma aula em uma pequena investigação.

Apresente aos alunos algumas manchetes verdadeiras e outras inventadas. Em vez de simplesmente perguntar quais são falsas, peça que expliquem como poderiam descobrir.

É aí que a atividade fica realmente interessante.

O aluno começa a perceber que verificar uma informação não depende de “achar que parece verdadeira”. É necessário procurar autoria, data, fonte original, contexto e evidências.

E veja que voltamos exatamente ao problema da origem do próprio Dia da Mentira.

Existe uma história muito repetida sobre a mudança do calendário francês. Ela parece plausível, aparece em inúmeros sites e foi reproduzida durante décadas. Ainda assim, quando pesquisadores foram atrás das evidências, descobriram que não havia documentação suficiente para tratá-la como uma explicação definitiva.

Esse é praticamente um exercício de educação midiática feito com uma história do século XVI.

Portanto, diante da pergunta “Quando é comemorado o Dia da Mentira no Brasil?”, a alternativa correta é C) 1º de abril.

Mas agora dá para ir um pouco além do gabarito: trata-se de uma tradição internacional muito antiga, cuja origem exata permanece incerta. Temos registros claros de brincadeiras realizadas em primeiro de abril desde pelo menos o século XVI e, no Brasil, um dos marcos históricos mais citados é o periódico pernambucano A Mentira, lançado em 1848.

E talvez exista uma boa ironia nisso tudo: para entender corretamente o Dia da Mentira, a primeira coisa que precisamos fazer é desconfiar das histórias fáceis demais sobre sua própria origem.

Quer aprofundar a discussão sobre mentira e informação no mundo digital? Uma leitura relacionada ao tema é A epidemia da desinformação: Como as fake news mudaram o mundo, de Dandara Morena. Publicado em 2025, o livro discute como informações falsas circulam pelas redes e de que maneira modificaram nossa relação cotidiana com aquilo que consideramos verdadeiro.

É uma indicação interessante para continuar o assunto além da curiosidade do primeiro de abril e discutir leitura crítica, redes sociais e desinformação contemporânea.

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Referências

  1. AGÊNCIA BRASIL. Hoje é Dia: datas, fatos e feriados de abril de 2026. O calendário de efemérides registra o Dia da Mentira em 1º de abril. Disponível em: Agência Brasil .
  2. LIBRARY OF CONGRESS. April Fools: The Roots of an International Tradition. Estudo sobre as origens históricas e folclóricas do primeiro de abril, suas diferentes hipóteses explicativas e os primeiros registros documentais da tradição. Disponível em: Library of Congress .
  3. LIBRARY OF CONGRESS. April Fools' Day: Topics in Chronicling America. Guia de pesquisa com jornais históricos e registros da popularização das brincadeiras de primeiro de abril. Disponível em: Library of Congress .
  4. HISTORY. April Fools' Day: Origins, Meaning & Jokes. Síntese sobre as diferentes teorias relacionadas à origem do April Fools' Day e sua transformação em tradição cultural. Disponível em: History .
  5. CÂMARA DOS DEPUTADOS. O Dia da Mentira. Documento do acervo da Câmara que registra a tradição brasileira e menciona a circulação do periódico pernambucano A Mentira em 1848. Disponível em: Câmara dos Deputados .
  6. OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. A longa história das “pernas curtas”. Artigo de Deonísio da Silva sobre o primeiro de abril e o periódico A Mentira, lançado em Pernambuco em 1848. Disponível em: Observatório da Imprensa .
  7. CONSELHO DA EUROPA. Information Disorder. Material que diferencia conceitos como misinformation, disinformation e mal-information e discute os desafios contemporâneos relacionados à circulação de informações falsas ou enganosas. Disponível em: Council of Europe .
  8. UNESCO. Addressing conspiracy theories: what teachers need to know. Material educacional que apresenta definições de desinformação, informação incorreta e outros conteúdos enganosos, além de discutir a importância da educação midiática. Disponível em: UNESCO .
  9. BRASIL. SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Letramento Midiático: uma segunda alfabetização. Iniciativa reunida no Mapa Brasileiro da Educação Midiática que trabalha fato e opinião, imagens manipuladas, autoria falsa, funcionamento das redes sociais e identificação de fontes confiáveis. Disponível em: Mapa Brasileiro da Educação Midiática .
  10. BRASIL. SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Método para leitura crítica e criativa de notícias e para contribuir com o combate à desinformação. Recurso educacional para análise da credibilidade e qualidade de conteúdos jornalísticos. Disponível em: Mapa Brasileiro da Educação Midiática .
  11. MORENA, Dandara. A epidemia da desinformação: Como as fake news mudaram o mundo. Editora Pormenor, 2025. Obra sobre circulação de notícias falsas, redes digitais, desinformação e nossa relação contemporânea com a verdade. Disponível em: informações sobre a obra .

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