Conheça a verdadeira origem do “rei da selva”

Conheça a verdadeira origem do “rei da selva”

Mais de um século depois de aparecer pela primeira vez na literatura, Tarzan continua se recusando a desaparecer da cultura popular. Em setembro de 2026, uma nova edição da série de quadrinhos Tarzan Beyond chegou às lojas, mostrando que o personagem ainda encontra novos leitores. Mas existe uma expressão que atravessou praticamente todas essas gerações: Tarzan, o rei da selva. Afinal, de que lugar o personagem era considerado rei?

Resposta correta: A) Da selva.
Tarzan ficou conhecido popularmente como o “rei da selva” e o “senhor da selva”. No romance original, entretanto, Edgar Rice Burroughs utiliza também uma expressão mais específica: “rei dos macacos”.

Parece uma daquelas perguntas cuja resposta todo mundo conhece sem saber exatamente de onde aprendeu. Tarzan balançando entre cipós, emitindo seu famoso grito e dominando os perigos da floresta tornou-se uma imagem tão presente no cinema, nos desenhos, nos quadrinhos e na publicidade que chamar o personagem de “rei da selva” parece quase parte de seu nome.

Só que Tarzan não nasceu no cinema. Antes de existir qualquer ator pulando de árvore em árvore, ele já existia nas páginas de uma revista norte-americana.

O personagem foi criado pelo escritor Edgar Rice Burroughs e apareceu pela primeira vez em Tarzan of the Apes, publicado na revista The All-Story em 1912. A história seria posteriormente lançada em formato de livro, em 1914.

A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos registra justamente essa trajetória e mostra como Tarzan passou da literatura para o cinema e, posteriormente, para as tiras de quadrinhos.

O curioso é que o personagem chegou às telas antes mesmo de ganhar suas famosas tiras nos jornais. Isso ajuda a explicar como uma figura surgida na chamada literatura pulp conseguiu rapidamente se transformar em um fenômeno de massa.

Mas quem era Tarzan na história original?

Burroughs apresenta o personagem como filho de aristocratas ingleses. Seus pais, John e Alice Clayton, Lorde e Lady Greystoke, acabam isolados na costa africana. Depois da morte dos dois, o bebê é acolhido por Kala, uma fêmea pertencente ao grupo de grandes símios imaginado pelo autor.

A criança recebe o nome de Tarzan e cresce sem conhecer inicialmente sua verdadeira origem humana. Aprende a sobreviver naquele ambiente, caçar, enfrentar outros animais e compreender os costumes do grupo que o criou.

Há aqui um detalhe que normalmente se perde nas adaptações.

Tarzan não foi originalmente criado por gorilas. Nos romances de Burroughs, ele cresce entre os Mangani, grandes símios fictícios criados pelo escritor. Algumas adaptações, especialmente as cinematográficas, passaram a representá-los como gorilas.

A animação Tarzan, lançada pela Disney em 1999, por exemplo, apresenta claramente o protagonista sendo acolhido por uma família de gorilas. É essa versão que muitos leitores mais jovens conhecem primeiro.

A própria Walt Disney Animation Studios apresenta a história dessa maneira: o bebê Tarzan é adotado por uma família de gorilas e cresce tentando encontrar seu lugar entre o mundo animal e o mundo humano.

Já no livro, a relação com os grandes símios é ainda mais central para explicar o famoso título de “rei”.

Em determinado momento do primeiro romance, Tarzan consegue assumir a liderança do grupo. Não por acaso, o capítulo XI de Tarzan of the Apes recebe o título “King of the Apes”, isto é, “Rei dos Macacos”.

O texto original pode ser consultado gratuitamente no Project Gutenberg , que disponibiliza a obra em inglês.

Então nossa pergunta está errada?

Não. Para uma questão de conhecimentos gerais, a alternativa “da selva” está correta porque foi justamente essa a expressão que se tornou popular ao redor do personagem.

O próprio site oficial dedicado à obra de Edgar Rice Burroughs utiliza “Lord of the Jungle”, ou “Senhor da Selva”, entre os títulos associados a Tarzan. Ao apresentar o primeiro romance, também explica que ele ascende à posição de “rei dos macacos”.

Essas informações podem ser conferidas no site oficial de Edgar Rice Burroughs .

Temos, portanto, duas formas que acabaram convivendo.

Dentro da narrativa original, Tarzan torna-se rei dos macacos. Na cultura popular, sua habilidade para sobreviver e dominar aquele ambiente transformou-o no rei ou senhor da selva.

A expressão se espalhou de tal maneira que aparece inclusive em edições brasileiras do livro. A edição comentada publicada pela Zahar, hoje parte do Grupo Companhia das Letras, apresenta Tarzan como líder de seu bando e “rei da selva”.

A página da edição brasileira também lembra que o protagonista é, na verdade, o pequeno lorde Greystoke, criado longe da sociedade humana.

Essa origem aristocrática é outro elemento que as adaptações nem sempre apresentam com a mesma importância.

Tarzan não é simplesmente um homem que nasceu na selva e nunca teve qualquer ligação com a sociedade europeia. Seu nome humano é John Clayton, ligado à família Greystoke.

Isso cria um dos principais conflitos do personagem: a vida de Tarzan é construída entre dois mundos.

De um lado, temos o ambiente no qual ele cresceu, aprendeu a sobreviver e construiu seus primeiros vínculos. Do outro, existe a sociedade humana, com sua linguagem, seus códigos sociais e sua própria história familiar.

A chegada de Jane Porter e de outros humanos à região torna esse conflito ainda mais evidente.

O personagem começa gradualmente a compreender que fisicamente pertence à mesma espécie daqueles visitantes, apesar de sua formação ter ocorrido completamente fora daquele universo social.

É justamente por isso que Tarzan pode ser lido como algo além de uma simples aventura.

A história coloca em cena perguntas sobre identidade, educação, pertencimento e aquilo que diferencia natureza e cultura.

O que faz uma pessoa ser quem ela é? Sua origem biológica? O ambiente em que cresceu? A língua que aprendeu? As pessoas — ou, no caso de Tarzan, os seres — com quem estabeleceu seus primeiros vínculos?

É claro que Burroughs responde a essas questões a partir das ideias e dos conhecimentos disponíveis no começo do século XX. Por isso, algumas concepções presentes no livro precisam ser observadas historicamente.

O National Museum of American History, do Smithsonian , chama atenção para esse aspecto ao explicar que as histórias de Tarzan refletem também ideias elitistas e raciais hoje consideradas ultrapassadas.

Esse contexto é importante porque a África apresentada nos primeiros romances não deve ser confundida com uma descrição objetiva do continente africano.

Estamos diante de uma África literária e imaginada por um autor norte-americano do início do século XX, construída segundo as convenções das histórias de aventura de sua época.

Isso fica ainda mais evidente quando percebemos que Burroughs criou povos, animais, sociedades e lugares fictícios para ampliar o universo de aventuras do personagem.

Ler Tarzan hoje pode, portanto, envolver duas experiências ao mesmo tempo: aproveitar uma obra que teve enorme importância para a literatura popular e observar criticamente as ideias do período histórico em que ela foi produzida.

E a influência cultural do personagem realmente foi enorme.

Segundo o Smithsonian, Burroughs escreveria dezenas de histórias relacionadas ao homem-macaco, e Tarzan acabaria se tornando um dos personagens literários mais reconhecidos do século XX.

Ele passou pelos romances, pelas histórias em quadrinhos, pelo rádio, pela televisão e pelo cinema.

A Library of Congress conserva inclusive trabalhos relacionados às tiras de Tarzan produzidas por artistas como Hal Foster e Burne Hogarth, dois nomes importantes da história dos quadrinhos norte-americanos.

E o personagem chegou bastante cedo ao cinema.

Em 1918, apenas alguns anos depois da publicação do romance em livro, apareceu uma adaptação cinematográfica de Tarzan of the Apes. Durante as décadas seguintes, diferentes atores assumiram o papel e ajudaram a construir a imagem de Tarzan que permanece no imaginário popular.

Uma das versões mais marcantes surgiria nos anos 1930, com Johnny Weissmuller. Foi principalmente o cinema que ajudou a transformar certos elementos — como o famoso grito de Tarzan — em características praticamente inseparáveis do personagem.

Décadas mais tarde, outra geração descobriria Tarzan pela animação da Disney de 1999, acompanhada pelas músicas de Phil Collins.

E agora chegamos novamente a 2026.

Neste ano, Tarzan ganhou mais uma encarnação nos quadrinhos. A série Tarzan Beyond, publicada pela Alien Books em parceria com Edgar Rice Burroughs, Inc., começou a circular em junho.

A terceira edição foi lançada em 9 de setembro de 2026, com roteiro de Steve Orlando e desenhos do brasileiro Renato Guedes.

As informações da publicação podem ser consultadas na página da Penguin Random House Comics .

Há algo curioso nisso.

O personagem nasceu numa revista em 1912 e, 114 anos depois, continua recebendo aventuras inéditas.

Pouquíssimos personagens conseguem atravessar tanto tempo sem desaparecer da cultura popular.

Parte dessa permanência provavelmente está justamente na simplicidade de sua imagem central: um homem que vive entre a humanidade e a natureza, movimenta-se livremente por um ambiente que parece inacessível aos demais e ocupa nele uma posição de liderança.

Daí vem a força da expressão “rei da selva”.

Ela não deve ser entendida literalmente como se Tarzan governasse um território, tivesse uma coroa, um palácio e súditos organizados em algum reino africano.

É um título simbólico.

Ele representa o domínio que o personagem demonstra sobre aquele ambiente, sua liderança entre os grandes símios e sua extraordinária capacidade de sobrevivência.

Existe ainda uma curiosidade linguística interessante.

Na língua portuguesa, costumamos falar em “selva” quando descrevemos Tarzan. Em inglês, uma das expressões mais associadas a ele é Lord of the Jungle.

Assim, expressões como “rei da selva”, “senhor da selva” e “rei dos macacos” acabaram se sobrepondo ao longo das inúmeras adaptações.

Então qual resposta marcar? Na pergunta apresentada, a alternativa correta é A) Da selva. Se estivermos analisando especificamente o primeiro romance de Edgar Rice Burroughs, porém, vale lembrar que Tarzan também recebe o título mais preciso de “King of the Apes” — Rei dos Macacos.

Esse pequeno detalhe mostra por que perguntas de conhecimentos gerais podem ser mais interessantes quando não paramos simplesmente no gabarito.

Em poucos minutos, uma pergunta sobre “o rei da selva” nos levou à literatura pulp, aos primeiros anos do cinema, aos quadrinhos, à construção de uma África ficcional, às diferenças entre adaptações e até a uma nova história publicada em 2026.

Portanto, diante da pergunta “De qual lugar o personagem Tarzan era considerado rei?”, a resposta esperada é A) Da selva.

Mas agora você já sabe que existe um detalhe por trás da expressão: antes de se tornar mundialmente conhecido como “rei da selva”, Tarzan nasceu nas páginas de Edgar Rice Burroughs como o homem-macaco que ascenderia à liderança de seu grupo e seria chamado de rei dos macacos.

E, depois de mais de cem anos, ele continua balançando de uma mídia para outra — da revista ao cinema, do cinema aos quadrinhos e dos quadrinhos para novas gerações de leitores.

Quer conhecer o Tarzan antes do cinema e dos desenhos? Vale a pena começar pelo próprio Tarzan dos Macacos, de Edgar Rice Burroughs. Existem atualmente edições em português que permitem conhecer a narrativa que deu origem ao personagem e perceber várias diferenças em relação às adaptações que vieram depois.

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Referências

  1. BURROUGHS, Edgar Rice. Tarzan of the Apes. Romance que apresentou o personagem Tarzan ao público e inclui o capítulo “King of the Apes”. Disponível em: Project Gutenberg .
  2. EDGAR RICE BURROUGHS, INC. Tarzan. Página oficial do personagem com informações sobre John Clayton, Lord Greystoke, Kala, os Mangani e os diferentes títulos associados ao herói. Disponível em: Edgar Rice Burroughs .
  3. EDGAR RICE BURROUGHS, INC. Tarzan of the Apes. Apresentação oficial do primeiro romance da série, publicado originalmente em 1912. Disponível em: Edgar Rice Burroughs .
  4. LIBRARY OF CONGRESS. Tarzan: From Big Screen to Comic Strip. Material sobre a estreia de Tarzan em 1912 e a passagem do personagem pela literatura, cinema e histórias em quadrinhos. Disponível em: Library of Congress .
  5. SMITHSONIAN — NATIONAL MUSEUM OF AMERICAN HISTORY. Tarzan on the Radio. Material sobre a expansão de Tarzan para diferentes meios de comunicação e seu impacto na cultura popular do século XX. Disponível em: National Museum of American History .
  6. SMITHSONIAN — NATIONAL MUSEUM OF AMERICAN HISTORY. Tarzan Family No. 66. Registro sobre a história editorial do personagem e observações sobre o contexto cultural e racial das narrativas originais. Disponível em: Smithsonian Institution .
  7. WALT DISNEY ANIMATION STUDIOS. Tarzan. Página oficial da animação de 1999, adaptação que apresenta Tarzan sendo criado por uma família de gorilas. Disponível em: Walt Disney Animation Studios .
  8. GRUPO COMPANHIA DAS LETRAS. Tarzan: edição comentada e ilustrada. Edição brasileira do romance de Edgar Rice Burroughs, com tradução de Thiago Lins, notas e ilustrações. Disponível em: Companhia das Letras .
  9. ALIEN BOOKS. Tarzan Beyond Comics from Alien Books Swing Into Comic Shops in 2026. Anúncio da nova série de quadrinhos produzida em colaboração com Edgar Rice Burroughs, Inc. Disponível em: Alien Books .
  10. PENGUIN RANDOM HOUSE COMICS. Tarzan Beyond #3. Edição escrita por Steve Orlando e ilustrada por Renato Guedes, lançada em 9 de setembro de 2026. Disponível em: Penguin Random House Comics .
  11. TRAMATURA. Tarzan dos Macacos. Edição contemporânea em português do romance de Edgar Rice Burroughs. Disponível em: Editora Tramatura .

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