Semiótica na Linguística: o que é, origem e principais autores
A semiótica é o campo de estudos dedicado aos signos, aos sistemas de significação e aos processos pelos quais os sentidos são produzidos, interpretados e compartilhados. Dentro da linguística, ela permite compreender que a língua não é apenas um conjunto de palavras, mas um sistema organizado de relações que participa da construção da realidade social, cultural e discursiva.
Semiótica é o estudo dos signos e dos processos de produção do sentido.
O que é semiótica?
A semiótica investiga como alguma coisa pode representar, indicar, sugerir ou significar outra coisa. Seu objeto não se limita às palavras. Imagens, gestos, sons, cores, roupas, sinais de trânsito, fotografias, rituais, objetos e comportamentos também podem funcionar como signos.
Quando observamos uma nuvem escura e imaginamos que choverá, interpretamos um fenômeno visível como sinal de uma possível mudança climática. Quando vemos uma luz vermelha no semáforo, entendemos que devemos parar. Quando alguém utiliza determinado emoji em uma conversa, interpretamos uma emoção ou uma atitude por meio de uma imagem convencionada.
Em todos esses casos existe um processo de significação. Algo percebido pelos sentidos é relacionado a uma informação, a uma ideia, a um objeto, a uma regra ou a uma experiência anterior.
A semiótica procura compreender justamente as condições que tornam essas interpretações possíveis. Ela pergunta:
- O que faz determinada forma funcionar como signo?
- De que maneira os signos se organizam em sistemas?
- Como o contexto interfere no sentido?
- Por que diferentes pessoas podem interpretar um signo de maneiras distintas?
- Como uma cultura estabelece códigos e convenções?
- Que efeitos de sentido são produzidos por um texto ou discurso?
Por isso, a semiótica pode ser definida não apenas como uma teoria dos signos isolados, mas como uma investigação dos processos de significação, comunicação e interpretação.
O que é um signo?
Em sentido geral, um signo é aquilo que, em determinadas condições, representa ou torna presente algo diferente de si mesmo.
A palavra escrita “árvore”, por exemplo, não possui folhas, raízes ou tronco. Mesmo assim, ela permite que o leitor pense em determinado tipo de vegetal. A forma escrita funciona como signo porque está ligada a um conceito dentro do sistema da língua portuguesa.
Uma fotografia de uma árvore também é um signo, mas funciona de maneira diferente da palavra. A fotografia apresenta uma relação visual de semelhança com aquilo que foi fotografado. Já a palavra depende principalmente de uma convenção linguística aprendida pelos falantes.
Outros exemplos ajudam a perceber a diversidade dos signos:
- A fumaça pode funcionar como sinal da presença de fogo.
- Uma aliança pode indicar casamento ou compromisso.
- Uma bandeira representa um país, uma instituição ou um grupo.
- Uma sirene pode indicar perigo ou emergência.
- Uma roupa preta pode adquirir sentidos relacionados ao luto.
- Um logotipo identifica uma empresa e os valores associados à sua marca.
O signo não possui necessariamente um significado fixo e universal. Seu funcionamento depende do sistema em que aparece, das convenções culturais, da situação comunicativa e das relações estabelecidas com outros signos.
Semiótica e linguística são a mesma coisa?
Semiótica e linguística são áreas próximas, mas não são exatamente a mesma disciplina.
A linguística estuda cientificamente as línguas humanas, examinando aspectos como sons, formas das palavras, organização das frases, significados, variação, uso e transformação histórica.
A semiótica possui um campo mais amplo, pois pode estudar qualquer sistema ou processo de significação, seja ele verbal ou não verbal. Ela pode analisar uma língua, mas também uma fotografia, um filme, uma música, uma cerimônia, uma embalagem, um espaço arquitetônico ou uma prática social.
A língua é um sistema de signos, mas nem todo sistema de signos é uma língua.
A expressão semiótica linguística pode designar, portanto, o estudo da língua como sistema de significação e também as teorias semióticas desenvolvidas a partir dos conhecimentos e métodos da linguística.
Em algumas tradições, especialmente na semiótica estrutural e discursiva, conceitos formulados inicialmente para a análise da linguagem verbal foram ampliados para o estudo de textos visuais, audiovisuais, musicais e multimodais.
A semiótica estuda apenas a comunicação?
Nem todo processo semiótico depende de uma intenção consciente de comunicar alguma coisa.
Uma pessoa que escreve uma carta pretende transmitir uma mensagem. Nesse caso, existe uma intenção comunicativa evidente. Entretanto, a febre também pode ser interpretada como sinal de uma enfermidade, embora o corpo não produza necessariamente esse sintoma com a intenção de informar alguém.
Uma pegada deixada na areia pode indicar que alguém passou pelo local. A pessoa que deixou a marca talvez não pretendesse comunicar sua presença, mas a pegada pode ser interpretada como signo.
Essa diferença é importante porque algumas teorias semióticas estudam principalmente a comunicação social e cultural, enquanto outras investigam relações de significação mais amplas, incluindo sintomas, indícios naturais, processos cognitivos e comportamentos animais.
Por isso, é mais adequado afirmar que a semiótica estuda os processos de produção e interpretação do sentido, dos quais a comunicação constitui uma parte fundamental, mas não necessariamente a única.
Signo, código, texto e semiose
A semiótica utiliza diferentes conceitos para compreender o funcionamento da significação.
Signo
É uma unidade ou ocorrência capaz de representar, indicar ou produzir a compreensão de alguma coisa.
Código
É um conjunto de regras e convenções que orienta a produção e a interpretação dos signos. A língua portuguesa é organizada por regras gramaticais e convenções lexicais, assim como o trânsito possui cores, formas e símbolos regulados por códigos próprios.
Texto
Em semiótica, o texto não precisa ser exclusivamente escrito. Pode ser entendido como um conjunto organizado de elementos que produz uma totalidade de sentido.
Dessa forma, podem ser estudados como textos:
- um romance;
- uma pintura;
- uma fotografia;
- um anúncio publicitário;
- uma canção;
- um filme;
- uma postagem em rede social;
- uma cerimônia religiosa;
- um espaço arquitetônico.
Semiose
A semiose é o processo pelo qual algo funciona como signo e produz outro signo ou efeito de interpretação.
Em vez de considerar o significado como uma substância imóvel, o conceito de semiose destaca que interpretar é estabelecer relações, produzir inferências e inserir o signo em novos contextos.
A origem da palavra semiótica
A palavra semiótica deriva do termo grego sēmeîon, que significa sinal, marca ou signo.
Na Antiguidade, esse vocabulário esteve relacionado à medicina. Os médicos observavam sintomas corporais e os interpretavam como sinais de processos que não podiam ser vistos diretamente.
Uma alteração na pele, uma febre ou determinada forma de respiração podia funcionar como indício de uma doença. A interpretação dos sinais permitia formular um diagnóstico.
A questão do signo também apareceu nos debates filosóficos gregos. Pensadores discutiam a relação entre as palavras, as ideias e as coisas existentes no mundo.
Embora a semiótica ainda não existisse como disciplina autônoma, já estavam presentes perguntas que continuariam fundamentais:
- As palavras possuem uma ligação natural com as coisas?
- Os nomes são estabelecidos por convenção?
- Como um sinal permite conhecer algo ausente?
- Qual é a relação entre pensamento, linguagem e realidade?
Os estoicos e uma antiga teoria do signo
Os filósofos estoicos desenvolveram uma reflexão importante sobre a linguagem e o significado.
Eles procuraram distinguir a expressão sonora, o conteúdo compreendido e o objeto ao qual o enunciado poderia se referir. Essa distinção antiga não corresponde exatamente às teorias modernas, mas demonstra uma percepção bastante elaborada da complexidade do signo.
O som de uma palavra pode ser percebido por alguém que não conhece a língua sem que seu significado seja compreendido. Isso mostra que a forma sonora e o conteúdo inteligível, embora relacionados, não são idênticos.
Os estoicos também estudaram os sinais utilizados em raciocínios, procurando compreender como uma ocorrência observável poderia permitir a conclusão sobre algo não imediatamente presente.
Dessa maneira, contribuíram tanto para a filosofia da linguagem quanto para a lógica dos signos e das inferências.
Santo Agostinho e os signos na comunicação
Entre os séculos IV e V, Agostinho de Hipona formulou uma das teorias dos signos mais influentes da Antiguidade tardia.
Em obras como De doctrina christiana, Agostinho diferenciou as coisas das coisas utilizadas para indicar outras. Também distinguiu os signos naturais dos signos produzidos com alguma finalidade comunicativa.
A fumaça que indica fogo pode ser considerada um signo natural. As palavras, os gestos e outros sinais convencionais usados pelas pessoas pertencem a outra categoria, pois participam de práticas comunicativas.
Sua reflexão foi desenvolvida principalmente no contexto da interpretação das Escrituras. Para compreender adequadamente um texto, seria necessário reconhecer os signos empregados, suas possibilidades figurativas e as convenções da língua e da cultura.
Agostinho contribuiu, assim, para aproximar a teoria dos signos das questões da linguagem, da interpretação e da transmissão do conhecimento.
John Locke e a doutrina dos signos
Em 1690, o filósofo inglês John Locke publicou Ensaio sobre o entendimento humano.
No final da obra, propôs uma divisão do conhecimento em três grandes áreas: o estudo das coisas, o estudo das ações humanas e uma doutrina dos signos, para a qual empregou o termo grego relacionado à semiótica.
Para Locke, as palavras eram signos das ideias e exerciam uma função decisiva na comunicação e na organização do conhecimento.
Sua proposta não originou imediatamente uma disciplina consolidada. Ainda assim, ela ocupa uma posição importante na história da semiótica, pois apresentou explicitamente o estudo dos signos como uma área geral do conhecimento.
A semiótica moderna surgiria mais tarde, principalmente a partir das contribuições independentes de Ferdinand de Saussure e Charles Sanders Peirce.
Ferdinand de Saussure e o nascimento da semiologia
Ferdinand de Saussure nasceu em Genebra, em 1857, e tornou-se um dos nomes mais importantes da linguística moderna.
Suas ideias ficaram conhecidas principalmente por meio do Curso de Linguística Geral, publicado postumamente em 1916. O livro foi organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye a partir de anotações de cursos ministrados por Saussure na Universidade de Genebra.
Saussure imaginou a criação de uma ciência que estudaria a vida dos signos no interior da sociedade. Ele a chamou de semiologia.
A linguística seria uma parte dessa ciência mais ampla, pois a língua constitui um dos mais importantes sistemas de signos utilizados pelos seres humanos.
Embora Saussure não tenha elaborado uma teoria semiótica completa, seus conceitos transformaram a maneira como os estudiosos passaram a compreender a língua e influenciaram profundamente o estruturalismo do século XX.
O signo linguístico em Saussure
Para Saussure, o signo linguístico reúne duas dimensões inseparáveis: o significante e o significado.
Significante
É a imagem acústica, isto é, a representação mental da forma sonora associada ao signo. Em usos posteriores, o termo também passou a designar mais amplamente a forma perceptível da expressão.
Significado
É o conceito associado ao significante.
Quando uma pessoa conhece a palavra “livro”, a sequência sonora ou gráfica está relacionada a um conceito. As duas dimensões formam conjuntamente o signo linguístico.
Signo linguístico = significante + significado
O significado não deve ser confundido diretamente com o objeto material. O signo linguístico une uma forma significante a um conceito dentro do sistema da língua.
A arbitrariedade do signo
Um dos princípios mais conhecidos de Saussure é a arbitrariedade do signo linguístico.
Isso significa que, em geral, não existe uma ligação natural e obrigatória entre o significante e o significado.
O mesmo animal recebe nomes diferentes em diferentes línguas:
- cão, em português;
- dog, em inglês;
- chien, em francês;
- Hund, em alemão.
Nenhuma dessas formas é naturalmente exigida pelo animal. A relação foi estabelecida historicamente pelas comunidades linguísticas.
Arbitrário, nesse contexto, não significa que cada falante possa mudar livremente as palavras. Uma vez estabelecido socialmente, o signo impõe-se aos membros da comunidade.
Existem casos de motivação parcial, como algumas onomatopeias, mas até elas variam entre as línguas e são influenciadas por convenções culturais.
O valor nasce das diferenças
Para Saussure, uma unidade linguística não possui valor apenas por estar ligada a determinado conceito. Seu valor depende das relações que mantém com as outras unidades do sistema.
Uma palavra significa também porque se distingue de outras palavras. Os sons de uma língua funcionam por oposições, e as categorias de significado são definidas por relações diferenciais.
Isso pode ser percebido na comparação entre vocábulos próximos. Os termos casa, lar, residência e moradia não possuem exatamente o mesmo valor, embora possam compartilhar parte do significado.
Cada palavra ocupa uma posição específica no sistema e adquire efeitos diferentes conforme o contexto em que é utilizada.
Essa compreensão relacional tornou-se uma das bases do estruturalismo: os elementos não são estudados como unidades independentes, mas como partes de uma rede organizada de diferenças.
Língua, fala, sincronia e diacronia
Saussure estabeleceu distinções metodológicas que influenciaram profundamente a linguística e a semiótica.
Língua e fala
A língua corresponde ao sistema socialmente compartilhado de convenções. A fala corresponde às realizações particulares produzidas pelos indivíduos.
O falante utiliza o sistema da língua, mas realiza escolhas próprias em situações concretas.
Sincronia e diacronia
O estudo sincrônico observa o funcionamento de uma língua em determinado estado. O estudo diacrônico examina suas transformações ao longo do tempo.
Saussure não negava a importância da história. Sua contribuição foi mostrar que um sistema também pode ser analisado pelas relações existentes em um momento específico.
Essas distinções ajudaram a construir métodos de análise estrutural que posteriormente foram aplicados à literatura, à antropologia, à moda, à publicidade e a outras práticas culturais.
Charles Sanders Peirce e a teoria geral dos signos
Enquanto Saussure desenvolvia suas ideias na Europa, o filósofo e lógico norte-americano Charles Sanders Peirce, nascido em 1839, construía uma teoria dos signos de grande amplitude.
Peirce relacionou a semiótica à lógica, ao conhecimento, à investigação científica e aos processos de interpretação.
Sua teoria não se limita aos signos linguísticos. Um pensamento, uma fotografia, uma fórmula matemática, um sintoma, uma ação ou um fenômeno natural podem participar de processos semióticos.
Ao contrário do modelo saussuriano, frequentemente apresentado como uma relação entre duas dimensões, a teoria peirciana possui uma estrutura triádica.
Seus elementos fundamentais são:
- o signo ou representamen;
- o objeto;
- o interpretante.
Signo, objeto e interpretante em Peirce
Signo
É aquilo que representa alguma coisa sob determinado aspecto. Pode ser uma palavra, uma imagem, um gesto, um som, uma marca ou outra forma capaz de participar da significação.
Objeto
É aquilo a que o signo se refere ou que procura representar. O objeto não precisa estar fisicamente presente. Pode ser uma ideia, uma possibilidade, uma regra ou um acontecimento passado.
Interpretante
É o efeito semiótico produzido pelo signo, isto é, a compreensão, a resposta ou o novo signo gerado durante o processo de interpretação.
O interpretante não deve ser confundido simplesmente com a pessoa que interpreta. Ele corresponde ao efeito de sentido ou à mediação produzida pelo signo.
Signo – objeto – interpretante
A relação é triádica porque nenhum dos elementos explica sozinho o funcionamento do signo.
O que é semiose?
Na teoria de Peirce, o signo produz um interpretante, que pode funcionar como outro signo e gerar uma nova interpretação. Esse movimento é chamado de semiose.
Ao ler uma palavra desconhecida, por exemplo, uma pessoa pode procurar sua definição. A definição utiliza outras palavras, que também precisam ser compreendidas por meio de conhecimentos e experiências anteriores.
O sentido não aparece como uma substância colocada dentro do signo. Ele se desenvolve em uma cadeia de relações interpretativas.
Isso não significa que qualquer interpretação seja igualmente válida. Os signos, os contextos, os hábitos culturais e os objetos estabelecem limites e orientações para o processo interpretativo.
A semiose destaca o caráter dinâmico do sentido: interpretar é relacionar o signo a outros signos, experiências, regras e possíveis consequências.
Ícone, índice e símbolo
Uma das classificações mais conhecidas de Peirce distingue os signos conforme sua relação com o objeto.
Ícone
O ícone representa por alguma relação de semelhança ou qualidade compartilhada.
- um retrato;
- um desenho;
- um mapa;
- uma maquete;
- um diagrama.
Índice
O índice mantém uma ligação factual, física, causal ou existencial com seu objeto.
- a fumaça como índice de fogo;
- uma pegada como índice de passagem;
- um dedo apontado;
- um termômetro indicando a temperatura;
- uma fotografia como efeito da luz refletida pelo objeto.
Símbolo
O símbolo funciona principalmente por uma regra, hábito ou convenção aprendida.
- as palavras de uma língua;
- os números;
- as bandeiras;
- os sinais convencionais de trânsito;
- os símbolos matemáticos.
Um mesmo signo pode reunir características icônicas, indiciais e simbólicas. Essas categorias não devem ser tratadas como caixas completamente isoladas.
Qual é a diferença entre Saussure e Peirce?
Saussure e Peirce são reconhecidos como fundadores de duas grandes tradições modernas do estudo dos signos, mas partiram de problemas e objetivos diferentes.
- Saussure partiu principalmente da linguística e do funcionamento social dos sistemas de signos.
- Peirce partiu da lógica, da filosofia, da investigação científica e dos processos gerais de representação.
- O modelo saussuriano enfatiza a relação entre significante e significado.
- O modelo peirciano enfatiza a relação entre signo, objeto e interpretante.
- Saussure destaca o valor produzido pelas diferenças internas ao sistema.
- Peirce destaca o movimento interpretativo da semiose.
Essas teorias não são simplesmente duas versões da mesma explicação. Cada uma possui conceitos, métodos e fundamentos próprios.
Entretanto, ambas contribuíram para demonstrar que o sentido não é uma propriedade transparente ou natural das formas. A significação depende de relações, sistemas e processos interpretativos.
Semiótica ou semiologia?
O termo semiologia ficou inicialmente associado à tradição saussuriana, enquanto semiótica foi frequentemente relacionado à tradição peirciana.
Durante o século XX, os dois termos foram utilizados de maneiras diferentes conforme o país, a escola teórica e o objeto analisado.
Em determinados contextos europeus, “semiologia” designava o estudo estrutural dos sistemas de signos sociais. Em outros, “semiótica” passou a ser utilizada como denominação mais abrangente para o campo.
Com a aproximação internacional dos pesquisadores, especialmente a partir da década de 1960, o termo semiótica tornou-se predominante para designar o conjunto das teorias dos signos e da significação.
Atualmente, os termos podem ser tratados como equivalentes em algumas publicações, mas também podem indicar tradições específicas. Por isso, é importante observar o autor e o referencial teórico de cada estudo.
Charles Morris e as dimensões da semiose
O filósofo norte-americano Charles William Morris contribuiu para a sistematização da semiótica no século XX.
Em Foundations of the Theory of Signs, publicado em 1938, organizou o estudo dos signos em três dimensões amplamente conhecidas:
Sintática
Estuda as relações formais dos signos entre si.
Semântica
Estuda as relações entre os signos e aquilo que significam ou representam.
Pragmática
Estuda as relações dos signos com seus intérpretes, usuários e situações de uso.
Essa divisão exerceu influência sobre a linguística, a lógica, a filosofia da linguagem e as teorias da comunicação.
Entretanto, nas teorias contemporâneas, sintaxe, semântica e pragmática não são necessariamente consideradas dimensões completamente independentes. Os sentidos concretos surgem frequentemente da interação entre estrutura, referência, contexto e uso.
Louis Hjelmslev e a teoria da linguagem
O linguista dinamarquês Louis Hjelmslev aprofundou e reformulou vários princípios estruturalistas.
Em seus Prolegômenos a uma teoria da linguagem, publicados originalmente em 1943, propôs uma teoria extremamente rigorosa das relações que constituem a linguagem.
Hjelmslev substituiu a oposição mais simples entre significante e significado pela distinção entre dois planos:
- plano da expressão;
- plano do conteúdo.
Em cada plano, distinguiu ainda forma e substância.
Uma língua organiza tanto o material expressivo quanto o conteúdo. O sentido não existe simplesmente pronto antes da linguagem; ele é recortado e estruturado pelas formas do sistema.
Essa concepção foi decisiva para a semiótica estrutural, pois permitiu analisar sistemas de significação que utilizam substâncias diferentes da linguagem verbal, como imagens, sons, movimentos e cores.
Roman Jakobson e a ampliação dos estudos da linguagem
Roman Jakobson foi um linguista de origem russa ligado ao formalismo e ao Círculo Linguístico de Praga.
Suas pesquisas contribuíram para a fonologia estrutural, a poética, a comunicação e as relações entre diferentes sistemas de signos.
Jakobson analisou a comunicação a partir de fatores como:
- remetente;
- destinatário;
- mensagem;
- contexto;
- código;
- contato.
A cada fator relacionou uma função predominante da linguagem, como as funções referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética.
Na função poética, a atenção recai sobre a organização da própria mensagem. Isso permitiu compreender a literatura não apenas pelo assunto apresentado, mas pela maneira como sons, ritmos, repetições e estruturas produzem efeitos de sentido.
Jakobson também empregou a expressão tradução intersemiótica para designar a interpretação de signos verbais por meio de signos de outro sistema, como acontece quando um romance é adaptado para o cinema.
Vladimir Propp e a estrutura das narrativas
Em 1928, o pesquisador russo Vladimir Propp publicou Morfologia do conto maravilhoso.
Propp analisou contos populares russos para identificar regularidades em sua organização.
Em vez de classificar as histórias apenas pelos personagens ou pelos temas, estudou as funções desempenhadas no desenvolvimento da ação.
Personagens diferentes podiam realizar funções semelhantes, como afastar-se, receber uma proibição, enfrentar uma prova, obter um objeto ou retornar transformados.
Embora Propp não tenha formulado uma teoria semiótica geral, seu método influenciou profundamente a narratologia e a semiótica narrativa.
A ideia de que narrativas aparentemente distintas podem compartilhar estruturas abstratas seria retomada e transformada por autores como Claude Lévi-Strauss e Algirdas Julien Greimas.
Claude Lévi-Strauss e a análise estrutural dos mitos
O antropólogo Claude Lévi-Strauss aplicou princípios estruturalistas ao estudo do parentesco, dos mitos e das culturas.
Para ele, os elementos de um mito não deveriam ser interpretados apenas isoladamente. O sentido surgia das relações e transformações estabelecidas entre diferentes elementos e versões da narrativa.
Lévi-Strauss analisou oposições como:
- natureza e cultura;
- vida e morte;
- cru e cozido;
- humano e animal;
- continuidade e ruptura.
O mito funcionaria como uma forma de organizar simbolicamente contradições fundamentais enfrentadas pelas sociedades.
Sua obra demonstrou que métodos inspirados na linguística poderiam ser empregados na análise de fenômenos culturais mais amplos.
Roland Barthes e os signos da vida cotidiana
O francês Roland Barthes foi um dos principais responsáveis pela expansão da semiologia para o estudo da cultura de massa.
Em Mitologias, publicado em 1957, analisou anúncios, fotografias, esportes, alimentos, entretenimentos e comportamentos sociais.
Barthes mostrou que objetos e práticas aparentemente comuns podem transmitir valores históricos e ideológicos.
Em sua teoria do mito, um signo já formado pode tornar-se o ponto de partida de um novo sistema de significação. Uma imagem não apresenta apenas pessoas ou objetos; pode naturalizar ideias sobre nação, consumo, masculinidade, sucesso, tradição ou modernidade.
Barthes também trabalhou com as noções de denotação e conotação.
- A denotação corresponde ao nível mais imediatamente reconhecível do conteúdo.
- A conotação envolve valores culturais, associações e efeitos adicionais construídos sobre esse primeiro nível.
Seu trabalho influenciou os estudos de publicidade, fotografia, moda, literatura e comunicação.
Émile Benveniste e a presença do sujeito na linguagem
O linguista francês Émile Benveniste desenvolveu estudos fundamentais sobre a enunciação e a subjetividade na linguagem.
A língua oferece formas que permitem ao falante ocupar uma posição no discurso. Palavras como eu, tu, aqui e agora dependem da situação em que são enunciadas.
Quando uma pessoa diz “eu”, não utiliza uma palavra que identifique sempre o mesmo indivíduo. O referente muda conforme quem assume a palavra.
Benveniste mostrou que a subjetividade não é apenas expressa por uma língua já pronta. Ela também é constituída pelas possibilidades oferecidas pela própria linguagem.
Sua contribuição foi decisiva para as teorias do discurso e para as abordagens semióticas interessadas em compreender como o enunciador se projeta no texto.
Algirdas Julien Greimas e a semiótica da significação
Algirdas Julien Greimas nasceu em 1917, na Lituânia, e desenvolveu grande parte de sua carreira acadêmica na França.
Sua obra procurou construir uma teoria capaz de explicar as condições gerais da produção do sentido.
Em Semântica estrutural, publicada em 1966, Greimas reuniu contribuições da linguística estrutural, da antropologia, do estudo das narrativas e da teoria do significado.
A semiótica greimasiana não se limita a classificar signos. Ela procura reconstruir os mecanismos pelos quais um texto organiza valores, ações, sujeitos, paixões e pontos de vista.
Essa tradição passou a ser conhecida como:
- semiótica francesa;
- semiótica narrativa;
- semiótica discursiva;
- semiótica da Escola de Paris.
Seu objeto central não é o signo isolado, mas a significação produzida pela organização global do texto e do discurso.
O percurso gerativo do sentido
A semiótica discursiva propõe que o sentido pode ser examinado por meio de diferentes níveis de organização.
Esse modelo é conhecido como percurso gerativo do sentido. Ele não descreve necessariamente a ordem psicológica em que o autor escreveu o texto. Trata-se de uma reconstrução metodológica das estruturas que participam da significação.
Nível fundamental
Identifica categorias semânticas mais abstratas, como vida e morte, liberdade e opressão, identidade e alteridade ou natureza e cultura.
Nível narrativo
Analisa sujeitos, objetos de valor, competências, ações, transformações, manipulações, sanções e programas narrativos.
Nível discursivo
Observa como as estruturas abstratas são concretizadas por temas, figuras, pessoas, espaços, tempos e procedimentos de enunciação.
Os níveis não funcionam como partes independentes. Eles representam graus de abstração utilizados para compreender a organização do sentido.
O modelo actancial
Greimas reformulou os estudos da narrativa ao propor o conceito de actante.
Um actante não é necessariamente uma personagem individual. É uma posição abstrata ocupada por qualquer elemento que desempenhe determinada função na narrativa.
O modelo actancial tradicional apresenta seis posições:
- sujeito;
- objeto;
- destinador;
- destinatário;
- adjuvante;
- oponente.
O sujeito busca entrar em conjunção com um objeto de valor. O destinador estabelece ou legitima a busca. Adjuvantes facilitam o percurso, enquanto oponentes criam obstáculos.
Uma mesma personagem pode ocupar diferentes posições ao longo do texto. Um objeto material, um sentimento, uma instituição ou uma ideia também podem exercer funções actanciais.
O modelo permite comparar narrativas distintas sem reduzir a análise ao nome ou à aparência das personagens.
O quadrado semiótico
O quadrado semiótico é um instrumento utilizado para representar relações lógicas e semânticas entre termos.
Ele parte geralmente de uma oposição, mas não se limita a colocá-la em duas colunas. O modelo procura distinguir relações como:
- contrariedade;
- contradição;
- complementaridade ou implicação.
Se uma análise parte dos termos vida e morte, também pode investigar as posições não vida e não morte.
Essas posições não são automaticamente sinônimas. “Não vida” pode adquirir sentidos como inércia, desaparecimento ou existência artificial, enquanto “não morte” pode estar relacionada à sobrevivência, à memória ou à imortalidade.
O quadrado não fornece sozinho a interpretação. Ele organiza relações que precisam ser demonstradas pelo próprio texto analisado.
Temas, figuras e isotopias
No nível discursivo, a semiótica distingue frequentemente temas e figuras.
Os temas são categorias mais abstratas, como liberdade, desigualdade, progresso, religiosidade, justiça ou abandono.
As figuras são elementos mais concretos relacionados à experiência perceptível, como uma prisão, uma estrada, uma balança, uma casa vazia ou uma tempestade.
Uma narrativa pode construir o tema da liberdade por meio de figuras como portas abertas, pássaros, horizontes e caminhos.
A repetição organizada de traços semânticos que assegura uma linha de leitura recebe o nome de isotopia.
Uma mesma expressão pode participar de diferentes isotopias. O contexto seleciona e combina os traços que tornam a interpretação coerente.
Enunciação, enunciador e enunciatário
A semiótica discursiva distingue o texto produzido do ato pressuposto de sua produção.
O enunciador é a imagem de quem organiza e assume o discurso. O enunciatário corresponde à imagem do destinatário construída pelo texto.
Essas categorias não devem ser confundidas diretamente com o autor e o leitor reais.
Um escritor pode construir um narrador ingênuo, autoritário ou pouco confiável sem possuir pessoalmente essas características.
Do mesmo modo, um anúncio publicitário projeta um destinatário com determinados desejos, conhecimentos, hábitos e valores.
A análise da enunciação procura reconhecer:
- quem parece falar;
- de qual posição fala;
- a quem se dirige;
- quais conhecimentos pressupõe;
- quais emoções procura produzir;
- que relação estabelece com o destinatário.
Umberto Eco e a cultura como fenômeno semiótico
O italiano Umberto Eco foi filósofo, medievalista, professor, escritor e um dos mais conhecidos semioticistas do século XX.
Em obras como Tratado geral de semiótica, publicado em 1975, procurou relacionar comunicação, códigos, produção sígnica e interpretação.
Para Eco, os fenômenos culturais podem ser estudados como processos de significação e comunicação. Isso não significa que toda cultura seja reduzida a uma mensagem simples, mas que suas práticas dependem de códigos, convenções e interpretações.
Eco trabalhou também com conceitos como:
- função sígnica;
- código;
- enciclopédia cultural;
- cooperação interpretativa;
- leitor-modelo;
- obra aberta;
- limites da interpretação.
A noção de enciclopédia procura mostrar que interpretar um texto exige mobilizar redes de conhecimentos culturais, e não apenas consultar definições isoladas.
Eco também insistiu que a abertura interpretativa não autoriza qualquer leitura. Os textos oferecem possibilidades, mas também estabelecem limites para interpretações inadequadas.
Juri Lotman e a semiótica da cultura
Juri Lotman foi um dos principais representantes da Escola Semiótica de Tartu-Moscou, formada a partir da década de 1960.
Lotman estudou literatura, cinema, arte, história cultural e sistemas de modelização.
Para essa tradição, a cultura pode ser compreendida como um complexo sistema de linguagens, memórias, textos e mecanismos de tradução.
Um dos conceitos mais importantes de Lotman é o de semiosfera, desenvolvido especialmente a partir da década de 1980.
Assim como a vida biológica ocorre em uma biosfera, os processos de significação acontecem no interior de espaços culturais organizados.
A semiosfera possui centros, periferias e fronteiras. As fronteiras não apenas separam; também traduzem, filtram e transformam informações provenientes de outros sistemas.
Essa perspectiva permite compreender a cultura como um espaço dinâmico de encontros, conflitos, memórias e traduções.
Julia Kristeva e a intertextualidade
Julia Kristeva participou do desenvolvimento das teorias semióticas e estruturalistas na França durante a década de 1960.
A partir do diálogo com Mikhail Bakhtin, difundiu o conceito de intertextualidade.
Um texto não surge como produção inteiramente isolada. Ele retoma, transforma, contesta e reorganiza outros discursos presentes na cultura.
Uma obra literária pode incorporar gêneros anteriores, referências religiosas, provérbios, documentos históricos, estilos de fala e discursos políticos.
A intertextualidade não se limita à citação explícita. Ela envolve a presença transformada de outros textos e sistemas discursivos dentro de uma nova produção.
Essa contribuição ampliou o estudo da significação, mostrando que os textos participam de redes históricas e sociais de relações.
Thomas Sebeok e os signos na vida
Thomas A. Sebeok teve papel importante na institucionalização internacional da semiótica e na ampliação de seus objetos.
Seus estudos contribuíram para a zoossemiótica, dedicada aos processos de comunicação e significação entre animais.
Essa ampliação ajudou a consolidar posteriormente a biossemiótica, que investiga processos sígnicos em organismos e sistemas vivos.
Sinais químicos, comportamentos de acasalamento, vocalizações, marcas territoriais e respostas a estímulos ambientais podem ser estudados como parte de processos de significação biológica.
Essa corrente afasta a semiótica da ideia de que todos os signos dependem necessariamente da linguagem humana ou de convenções culturais.
Michael Halliday e a semiótica social
O linguista britânico Michael Halliday desenvolveu a linguística sistêmico-funcional e apresentou a linguagem como uma semiótica social.
A língua não seria apenas um sistema abstrato de regras. Ela constitui um conjunto de recursos utilizados pelos falantes para produzir significados em situações sociais.
As escolhas linguísticas estão relacionadas às funções que o texto desempenha, às relações entre os participantes e ao modo como a mensagem é organizada.
Halliday distinguiu três metafunções gerais:
- ideacional: representar experiências e relações do mundo;
- interpessoal: construir relações, posições e avaliações;
- textual: organizar a mensagem como um conjunto coerente.
Essa perspectiva influenciou estudos de discurso, educação, gêneros textuais e comunicação multimodal.
Gunther Kress, Theo van Leeuwen e a multimodalidade
Os estudos de Gunther Kress e Theo van Leeuwen ampliaram a semiótica social para a análise de textos multimodais.
Uma página de jornal, um vídeo ou uma postagem digital não produz sentido apenas por meio das palavras. Diferentes modos semióticos podem atuar conjuntamente:
- escrita;
- imagem;
- cor;
- tipografia;
- som;
- movimento;
- enquadramento;
- organização espacial.
Uma palavra escrita em letras pequenas e discretas não produz o mesmo efeito que a mesma palavra apresentada em fonte grande, vermelha e centralizada.
O conteúdo verbal pode permanecer semelhante, mas os recursos visuais modificam a hierarquia, a intensidade e a relação com o leitor.
A multimodalidade tornou-se especialmente importante para compreender interfaces digitais, redes sociais, publicidade, materiais didáticos e produções audiovisuais.
A semiótica das paixões
Durante seu desenvolvimento, a semiótica discursiva ampliou a análise das ações para estudar também estados afetivos e passionais.
Em Semiótica das paixões, Greimas e Jacques Fontanille investigaram como emoções e disposições são construídas pela organização do discurso.
A paixão não é tratada apenas como um sentimento psicológico privado. Ela pode ser analisada como uma configuração de valores, expectativas, avaliações e transformações.
O ciúme, por exemplo, envolve pelo menos:
- um vínculo valorizado;
- o temor de perder o objeto;
- a presença real ou imaginada de um rival;
- uma interpretação das ações do outro;
- expectativas de exclusividade;
- mudanças na confiança do sujeito.
Dessa forma, a semiótica procura descrever como o texto faz o leitor reconhecer, acompanhar e avaliar determinadas paixões.
Semiótica tensiva
A semiótica tensiva, desenvolvida especialmente por Claude Zilberberg e Jacques Fontanille, voltou-se para as variações de intensidade e extensidade na produção do sentido.
Nem todo significado é construído apenas por categorias fixas. Um texto pode produzir acelerações, desacelerações, aumentos, diminuições, concentrações e expansões.
Uma emoção pode surgir de modo fraco, intensificar-se rapidamente e depois desaparecer. Uma informação pode atingir poucas pessoas com grande intensidade ou circular amplamente com menor impacto.
A semiótica tensiva oferece instrumentos para analisar essas gradações, ritmos e modulações.
Essa abordagem é produtiva para o estudo de poesia, música, publicidade, acontecimentos midiáticos e discursos passionais.
Eric Landowski e a sociossemiótica
Eric Landowski desenvolveu uma abordagem voltada às interações, às práticas sociais e à construção do sentido na experiência.
Em seus estudos sobre regimes de interação, distingue modos de relação como:
- programação;
- manipulação;
- ajustamento;
- acidente.
A programação ocorre quando a interação segue regularidades relativamente previsíveis. A manipulação envolve estratégias pelas quais um sujeito procura levar outro a agir.
O ajustamento depende de uma sensibilidade recíproca entre os participantes, sem que todo o processo esteja previamente programado.
O acidente corresponde à irrupção do imprevisível e do risco.
Essa perspectiva aproxima a semiótica da análise das relações cotidianas, da política, do consumo, do corpo, do espaço e das experiências sensíveis.
A institucionalização internacional da semiótica
O interesse internacional pelo estudo dos signos cresceu intensamente durante as décadas de 1950 e 1960.
Pesquisadores da linguística, filosofia, antropologia, literatura, comunicação, psicologia e biologia passaram a dialogar em torno de problemas semióticos.
Em 1969, foi fundada em Paris a Associação Internacional de Estudos Semióticos, conhecida pelas siglas IASS-AIS.
Entre os estudiosos ligados à fundação encontravam-se nomes como:
- Algirdas Julien Greimas;
- Roman Jakobson;
- Émile Benveniste;
- Roland Barthes;
- Julia Kristeva;
- Umberto Eco;
- Thomas Sebeok;
- Juri Lotman.
A criação da associação e da revista Semiotica contribuiu para consolidar o campo e aproximar tradições que anteriormente se desenvolviam de maneira relativamente separada.
Apesar dessa institucionalização, a semiótica nunca se tornou uma teoria única. Ela continua reunindo escolas com fundamentos, métodos e objetos diferentes.
O desenvolvimento da semiótica no Brasil
A semiótica ganhou força no Brasil principalmente a partir da segunda metade do século XX.
Duas grandes linhas alcançaram ampla repercussão:
- a semiótica de orientação peirciana, especialmente desenvolvida nos estudos de comunicação, artes e linguagens;
- a semiótica narrativa e discursiva de origem greimasiana, desenvolvida em programas de linguística, língua portuguesa e estudos do discurso.
Na tradição peirciana, destaca-se Lucia Santaella, responsável por uma extensa produção sobre signos, percepção, comunicação, arte, tecnologia e cultura digital.
Na semiótica discursiva, pesquisadores como Diana Luz Pessoa de Barros, José Luiz Fiorin, Luiz Tatit e Norma Discini contribuíram para a formação de estudantes, a elaboração de métodos de análise e a aplicação da teoria a diferentes discursos.
A produção brasileira também se destacou por articular a semiótica a temas como:
- enunciação;
- canção popular;
- literatura;
- mídia;
- política;
- intolerância;
- identidade;
- corpo;
- práticas digitais;
- discursos sociais.
Em vez de apenas repetir modelos europeus, os estudos brasileiros produziram desenvolvimentos próprios e ampliaram os objetos da disciplina.
Semiótica, semântica e pragmática
Esses três termos estão relacionados, mas não devem ser utilizados como sinônimos.
Semântica
Estuda os significados das palavras, expressões, sentenças e outras unidades. Dependendo da teoria, pode observar relações lexicais, composição do significado, referência e organização conceitual.
Pragmática
Investiga como o contexto e as intenções interferem no uso da linguagem.
A frase “Está frio aqui” pode descrever uma temperatura, mas também funcionar como um pedido indireto para fechar uma janela.
Semiótica
Possui um escopo mais amplo. Pode estudar os sistemas linguísticos, mas também outros modos de significação, suas estruturas, relações e interpretações.
Em determinadas teorias, semântica e pragmática aparecem como dimensões do estudo semiótico. Em outras, são disciplinas com métodos próprios.
Semiótica e hermenêutica
A hermenêutica também se dedica a problemas de interpretação, especialmente relacionados a textos, tradições, experiências históricas e formas de compreensão.
A diferença está principalmente na origem teórica e nos métodos empregados.
A semiótica costuma reconstruir sistemas, relações, unidades, operações e processos que organizam a significação.
A hermenêutica enfatiza frequentemente as condições históricas da compreensão, a relação entre parte e todo, a tradição e a experiência interpretativa.
As duas áreas podem dialogar, mas não são intercambiáveis. Um estudo pode utilizar instrumentos semióticos para descrever a organização do texto e questões hermenêuticas para discutir sua interpretação histórica.
Como realizar uma análise semiótica?
Não existe um único método de análise válido para todas as correntes semióticas. O procedimento depende da teoria escolhida e do objeto investigado.
Ainda assim, algumas perguntas podem orientar uma observação inicial:
- Qual é o objeto analisado?
- Quais linguagens participam de sua composição?
- Quais elementos funcionam como signos?
- Como eles se relacionam?
- Quais oposições organizam o sentido?
- Quem parece produzir o discurso?
- Que destinatário é projetado?
- Quais valores aparecem como positivos ou negativos?
- Quais conhecimentos culturais são pressupostos?
- Que emoções ou ações o texto procura estimular?
Em uma análise visual, também é possível observar:
- cores;
- formas;
- enquadramento;
- posição dos elementos;
- direção dos olhares;
- contrastes;
- luz e sombra;
- tipografia;
- proporções;
- relações entre imagem e texto verbal.
O objetivo não é atribuir significados arbitrários a cada detalhe, mas demonstrar como os elementos se articulam na produção de um efeito global.
Exemplo de análise de uma propaganda
Imagine um anúncio de automóvel que apresenta o veículo no centro, diante de uma estrada vazia, cercada por montanhas e iluminada pelo nascer do sol.
Uma análise semiótica pode observar:
- o carro ocupa a posição central e recebe maior destaque visual;
- a estrada aberta sugere movimento, possibilidade e liberdade;
- a ausência de outros veículos constrói uma ideia de exclusividade;
- as montanhas podem representar desafio, aventura ou superação;
- o nascer do sol sugere começo, renovação e futuro;
- a baixa presença de elementos urbanos afasta o produto das ideias de trânsito, poluição e rotina;
- o texto verbal pode associar a compra do veículo à conquista de autonomia pessoal.
O anúncio não vende apenas um meio de transporte. Ele procura relacionar o produto a valores como liberdade, sucesso, aventura e identidade.
A análise semiótica demonstra como imagem, composição e linguagem verbal participam conjuntamente dessa construção.
Aplicações da semiótica
Por estudar diferentes formas de significação, a semiótica pode ser aplicada a numerosos campos.
- Linguística: estrutura da língua, enunciação, discurso e produção textual.
- Literatura: personagens, narrativas, temas, figuras, vozes e intertextualidade.
- Publicidade: marcas, valores, persuasão e identidade visual.
- Cinema: imagem, montagem, enquadramento, som e narrativa.
- Jornalismo: construção da notícia, títulos, fotografias e efeitos de objetividade.
- Política: discursos, símbolos, campanhas, bandeiras e representações sociais.
- Educação: materiais didáticos, leitura multimodal e letramentos.
- Design: interfaces, formas, cores, legibilidade e experiência do usuário.
- Moda: vestuário, distinção social, identidade e pertencimento.
- Ambientes digitais: emojis, memes, algoritmos, perfis e plataformas.
- Biologia: comunicação animal e processos sígnicos entre organismos.
A presença da semiótica em áreas tão diferentes decorre da centralidade dos signos na experiência humana e na vida social.
Equívocos comuns sobre a semiótica
“A semiótica procura mensagens secretas”
A análise semiótica não consiste em inventar significados ocultos. Ela precisa demonstrar suas interpretações por meio das relações existentes no objeto.
“Cada cor possui sempre o mesmo significado”
As cores não apresentam valores universais e imutáveis. Seus sentidos dependem de contextos culturais, históricos e composicionais.
“Todo signo possui apenas um significado”
Os signos podem produzir diferentes efeitos conforme o sistema, o gênero, a situação e os conhecimentos dos intérpretes.
“Semiótica é apenas o estudo de símbolos”
Símbolos são apenas uma modalidade possível. A semiótica também estuda ícones, índices, estruturas narrativas, discursos, práticas e processos interpretativos.
“A semiótica elimina o contexto”
Algumas abordagens estruturalistas iniciais privilegiaram as relações internas do texto. Entretanto, muitas correntes posteriores incorporaram a enunciação, a história, a cultura, as práticas e as interações sociais.
Linha do tempo da semiótica
- Antiguidade grega: sinais são discutidos na medicina, na lógica e na filosofia da linguagem.
- Séculos III e II a.C.: os estoicos desenvolvem distinções entre expressão, conteúdo e objeto.
- Séculos IV e V: Agostinho de Hipona formula uma teoria dos signos naturais e convencionais.
- 1690: John Locke propõe uma doutrina geral dos signos em seu Ensaio sobre o entendimento humano.
- Década de 1860: Charles Sanders Peirce começa a desenvolver sistematicamente sua teoria dos signos.
- 1907–1911: Saussure ministra os cursos de linguística que serviriam de base para a publicação de suas ideias.
- 1916: é publicado postumamente o Curso de Linguística Geral.
- 1928: Vladimir Propp publica Morfologia do conto maravilhoso.
- 1938: Charles Morris publica Foundations of the Theory of Signs.
- 1943: Hjelmslev publica os Prolegômenos a uma teoria da linguagem.
- Décadas de 1950 e 1960: estruturalismo e semiologia expandem-se na linguística, antropologia, literatura e cultura de massa.
- 1957: Roland Barthes publica Mitologias.
- 1966: Greimas publica Semântica estrutural.
- 1969: é fundada a Associação Internacional de Estudos Semióticos.
- 1975: Umberto Eco publica Tratado geral de semiótica.
- 1979: Greimas e Courtés publicam o Dicionário de semiótica.
- 1984: Lotman desenvolve o conceito de semiosfera.
- Décadas de 1980 e 1990: expandem-se a semiótica das paixões, a semiótica social, a biossemiótica e a multimodalidade.
- Século XXI: a semiótica amplia seus estudos para plataformas digitais, algoritmos, interfaces, inteligência artificial e novas formas de interação cultural.
Principais autores e pensadores da semiótica
Precursores históricos
- Hipócrates: associado à interpretação dos sinais e sintomas na medicina antiga.
- Aristóteles: refletiu sobre linguagem, lógica, representação e relações entre palavras, pensamentos e coisas.
- Os estoicos: desenvolveram uma importante teoria da significação e das inferências por sinais.
- Agostinho de Hipona: distinguiu signos naturais e signos empregados na comunicação.
- John Locke: propôs a semiótica como doutrina geral dos signos no final do século XVII.
Fundadores modernos
- Ferdinand de Saussure: formulou as bases da semiologia, do signo linguístico e da concepção estrutural da língua.
- Charles Sanders Peirce: elaborou uma teoria lógica e filosófica dos signos, da semiose e da interpretação.
Estruturalismo e teoria da linguagem
- Louis Hjelmslev: desenvolveu a glossemática e a distinção entre expressão e conteúdo.
- Charles Morris: sistematizou as dimensões sintática, semântica e pragmática.
- Roman Jakobson: aproximou linguística, poética, comunicação e tradução intersemiótica.
- Vladimir Propp: identificou estruturas recorrentes nas narrativas populares.
- Claude Lévi-Strauss: aplicou o método estrutural aos mitos e às culturas.
- Émile Benveniste: desenvolveu os estudos da enunciação e da subjetividade.
Semiótica da cultura e do discurso
- Roland Barthes: analisou os signos da cultura de massa, os mitos, a moda e a fotografia.
- Algirdas Julien Greimas: formulou a semiótica narrativa e discursiva, o percurso gerativo e o modelo actancial.
- Umberto Eco: estudou códigos, cultura, interpretação e cooperação textual.
- Juri Lotman: desenvolveu a semiótica da cultura e o conceito de semiosfera.
- Julia Kristeva: contribuiu para as noções de intertextualidade e produção textual.
- Thomas Sebeok: ampliou a disciplina para a comunicação animal e os processos sígnicos da vida.
Desenvolvimentos contemporâneos
- Michael Halliday: apresentou a linguagem como semiótica social.
- Gunther Kress e Theo van Leeuwen: desenvolveram os estudos de multimodalidade e gramática visual.
- Jacques Fontanille: contribuiu para a semiótica do discurso, das paixões, das práticas e do corpo.
- Claude Zilberberg: desenvolveu a semiótica tensiva.
- Eric Landowski: formulou uma sociossemiótica das interações e do sentido vivido.
Pesquisadores de destaque no Brasil
- Lucia Santaella: referência nos estudos peircianos, da percepção, da arte e das linguagens digitais.
- Diana Luz Pessoa de Barros: contribuiu para a consolidação da semiótica do texto e do discurso no Brasil.
- José Luiz Fiorin: desenvolveu estudos sobre discurso, enunciação, ideologia e semiótica narrativa.
- Luiz Tatit: aplicou a semiótica ao estudo da canção popular brasileira.
- Norma Discini: desenvolveu pesquisas sobre estilo, sujeito, corpo e discurso.
Por que estudar semiótica?
Estudar semiótica ajuda a compreender que os sentidos não surgem de maneira espontânea ou inteiramente natural.
Palavras, imagens e comportamentos participam de sistemas históricos e culturais. Aquilo que parece evidente pode resultar de convenções, escolhas e estratégias discursivas.
A semiótica fortalece a leitura crítica porque permite observar não apenas o que é dito, mas como algo é construído para parecer verdadeiro, desejável, perigoso, moderno ou necessário.
Ela também mostra que forma e conteúdo não podem ser separados de maneira simples. O tamanho de uma letra, a posição de uma imagem, o ritmo de uma narrativa e a escolha de uma palavra participam da significação.
Dentro da linguística, a semiótica amplia o estudo da língua ao relacioná-la à cultura, ao discurso, à enunciação, ao corpo e às diferentes linguagens presentes na sociedade.
Sua principal contribuição está em ensinar que interpretar não é apenas descobrir uma mensagem escondida. É reconstruir as relações que tornam determinado sentido possível e explicar por que ele produz certos efeitos em determinado contexto.
Obras fundamentais para iniciar os estudos
-
Ferdinand de Saussure —
Curso de Linguística Geral.
Obra fundamental para compreender o signo linguístico, o valor, a língua e a semiologia. -
Charles Sanders Peirce —
Semiótica ou seleções de seus escritos.
Apresenta a teoria triádica do signo, a semiose e as classificações peircianas. -
Louis Hjelmslev —
Prolegômenos a uma teoria da linguagem.
Desenvolve os planos da expressão e do conteúdo. -
Roland Barthes —
Elementos de semiologia.
Introdução à tradição estrutural de análise dos sistemas de signos. -
Roland Barthes —
Mitologias.
Apresenta análises dos signos da cultura cotidiana. -
Algirdas Julien Greimas —
Semântica estrutural.
Obra fundadora da semiótica narrativa e discursiva. -
Greimas e Courtés —
Dicionário de semiótica.
Referência conceitual para o estudo da semiótica francesa. -
Umberto Eco —
Tratado geral de semiótica.
Discute signos, códigos, comunicação e cultura. -
Juri Lotman —
Universe of the Mind.
Apresenta temas centrais da semiótica da cultura. -
Lucia Santaella —
O que é semiótica.
Introdução brasileira à teoria peirciana. -
Diana Luz Pessoa de Barros —
Teoria semiótica do texto.
Apresentação didática da semiótica narrativa e discursiva. -
José Luiz Fiorin —
Elementos de análise do discurso.
Explica o percurso gerativo, as estruturas narrativas e a organização discursiva.
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