A mídia contemporânea como aparelho ideológico: uma leitura althusseriana
1.RESUMO
Este artigo investiga o papel da mídia como Aparelho Ideológico de Estado (AIE) à luz da teoria de Louis Althusser, partindo do pressuposto de que os discursos midiáticos, para além da função informativa, atuam na construção de visões de mundo e na regulação da subjetividade social, promovendo a legitimação de sentidos. O estudo objetiva discutir os conceitos de ideologia e AIEs, analisar como os meios de comunicação reproduzem as ideologias dominantes formando representações sociais. Adota-se uma abordagem qualitativa de caráter analítico-discursivo, composto pela matéria midiática sobre a suspensão da rede social X (antigo Twitter) no Brasil. A análise revela marcas discursivas que evidenciam os processos de interpelação e naturalização de valores ideológicos, concluindo que a mídia, ao ocupar uma posição central na produção de sentidos, desempenha uma função estratégica na manutenção das formações ideológicas hegemônicas.
Palavras-chave: Althusser, Aparelhos Ideológicos de Estado, Discursos midiáticos.
2.INTRODUÇÃO
Em contraste com o avanço da era digital, a hegemonia dos meios de comunicação de massa para o consumo noticioso ainda se mantém notória. Um levantamento recente da multinacional YouGov corrobora essa constatação, indicando que a televisão se estabelece como o vetor mais popular de acesso à informação no Brasil, sendo utilizada por 63,7% da população. Tais dados evidenciam que a sociedade permanece intrinsecamente vinculada a sistemas comunicacionais tradicionais, os quais se expandiram e se adaptaram consideravelmente nas últimas décadas.
Contudo, observa-se que a ascensão das redes sociais vem reconfigurando o campo midiático, ampliando os mecanismos de circulação. Nesse novo ecossistema informacional, a mídia, seja em sua vertente tradicional ou digital, assume um papel que transcende a mera transmissão de dados: ela atua como instância de produção de sentidos, contribuindo para a formação das representações sociais e para a orientação do comportamento dos sujeitos em sociedade.
Esse cenário revela o paradoxo da subjetividade contemporânea: o indivíduo acredita agir de forma autônoma, quando, na realidade, sua subjetividade é estruturada e regulada pelas formações ideológicas vigentes. Buscando desvelar as estruturas subjacentes a essa regulação, e reconhecendo o papel da mídia na reprodução das ideologias dominantes, este trabalho propõe uma análise crítica da maquinaria social em operação.
Ancorando-se na teoria dos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIEs) proposta por Louis Althusser (1970), o estudo tem por objetivo geral compreender o papel da mídia como aparelho ideológico na reprodução das ideologias dominantes. De forma mais específica, busca: (1) discutir os conceitos de ideologia e de Aparelhos Ideológicos de Estado na perspectiva althusseriana; (2) identificar marcas discursivas que evidenciem processos de interpelação e naturalização de valores ideológicos nos discursos midiáticos; e (3) analisar o papel da mídia tradicional e digital na formação das visões de mundo e na legitimação de valores hegemônicos.
A abordagem adotada é qualitativa de caráter analítico-discursivo, fundamentada na Análise do Discurso de orientação althusseriana, com foco na identificação das formações discursivas e dos mecanismos de interpelação ideológica presentes nas práticas comunicacionais. O corpus da pesquisa consiste em coberturas jornalísticas e publicações midiáticas contemporâneas sobre a suspensão da rede social X (antigo Twitter) no Brasil, determinada por ordem judicial do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em agosto de 2024.
A escolha desse caso se justifica por sua natureza emblemática: ele revela tensões entre Estado, mídia e liberdade de expressão, evidenciando como os discursos produzidos nesse contexto explicitam disputas por hegemonia simbólica e pela regulação do espaço público digital. Além disso, permite observar a atuação simultânea de dois aparelhos ideológicos — o estatal (representado pelo poder judiciário) e o privado (a plataforma digital X) —, que, por meio da linguagem e dos algoritmos, interpelam os sujeitos e contribuem para a manutenção das formações ideológicas dominantes.
Assim, o presente artigo busca contribuir para o entendimento do papel estratégico da mídia na produção de sentidos, evidenciando como os discursos midiáticos contemporâneos operam como instrumentos de reprodução ideológica, legitimando determinadas visões de mundo e consolidando a hegemonia cultural vigente.
2.1.BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DE ALTHUSSER E O MARXISMO ESTRUTURALISTA
Louis Althusser aparece como um pensador fundamental para a renovação da teoria marxista no século XX, sendo frequentemente associado ao chamado marxismo estruturalista. Seu projeto teórico, desenvolvido em ensaios como Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado (ALTHUSSER, 1980), buscou superar o que considerava uma leitura descritiva e humanista da obra de Marx. Em lugar da tradicional metáfora espacial do “edifício social”, Althusser propôs uma análise rigorosa do funcionamento das instâncias sociais e de sua articulação estrutural.
A estrutura de qualquer sociedade, segundo o autor, compõe-se de uma infraestrutura (a base econômica) e de uma superestrutura (os níveis jurídico-político e ideológico). O desafio teórico central consistia em compreender o grau de eficácia da superestrutura, uma vez que, embora a determinação em última instância pertença à base econômica, cada instância exerce uma função própria e relativamente autônoma (ALTHUSSER, 1980).
Para desenvolver essa análise, Althusser retoma um ponto já presente em Marx: a sobrevivência de qualquer formação social depende da reprodução das condições de produção.
Para simplificar minha exposição, e partindo do pressuposto de que toda formação social surge de um modo de produção dominante, posso dizer que o processo de produção põe em ação as forças produtivas existentes, dentro e sob relações de produção definidas. Conclui-se, portanto, que para existir, toda formação social deve reproduzir as condições de sua produção ao mesmo tempo em que produz, e para poder produzir. Assim, ela deve reproduzir: 1. as forças produtivas, 2. as relações de produção existentes.
Essa reprodução, no entanto, não se limita à renovação dos meios materiais (matérias-primas, instrumentos e força de trabalho), mas envolve, sobretudo, a reprodução das relações de produção, que são, em última instância, relações de exploração. É nesse ponto que a superestrutura, especialmente a instância ideológica, torna-se determinante, pois a reprodução da força de trabalho requer também a reprodução da submissão dos indivíduos à ideologia dominante.
A reprodução da força de trabalho revela, portanto, como condição sine qua non não apenas a reprodução de suas 'habilidades', mas também a reprodução de sua sujeição à ideologia dominante ou à 'prática' dessa ideologia, com a ressalva de que não basta dizer 'não apenas, mas também', pois é evidente que é nas formas e sob as formas de sujeição ideológica que se providencia a reprodução das habilidades da força de trabalho.
Dessa forma, Althusser oferece uma leitura estruturalista de Marx, deslocando o foco da ação consciente do sujeito para os mecanismos ideológicos estruturais que produzem e reproduzem as formações sociais.
2.2.APARELHOS IDEOLÓGICOS DE ESTADO
A teoria marxista-leninista clássica concebe o Estado primeiramente como o Aparelho Repressivo de Estado (ARE). O ARE inclui o Governo, a Administração, o Exército, a Polícia, os Tribunais e as Prisões. A função do ARE é a repressão, assegurando pela força as condições políticas da dominação de classe. Contudo, Althusser propõe uma teoria do Estado mais complexa, que distingue o poder de Estado (objeto da luta de classes) do aparelho de Estado. O aparelho de Estado compreende dois corpos: o ARE e os Aparelhos Ideológicos de Estado AIEs.
Os AIEs são uma pluralidade de instituições distintas e especializadas. Embora o ARE pertença inteiramente ao domínio público, a maioria dos AIEs releva ser do domínio privado, como as Igrejas, os Partidos, os sindicatos e as famílias. Para ele, a distinção fundamental reside no modo de funcionamento: o ARE funciona pela violência (repressão), enquanto os AIEs funcionam pela ideologia.
A unidade dos diversos AIEs é assegurada pela classe dominante. A classe no poder deve exercer sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos de Estado para manter o poder. A função dos AIEs em grande parte, é assegurar a própria reprodução das relações de produção. Embora os AIEs possam ser local e alvo da luta de classes, a ideologia dominante realiza-se neles, garantindo o concerto ideológico da sociedade.
Que eu saiba, nenhuma classe consegue manter o poder do Estado por um longo período sem, ao mesmo tempo, exercer sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos do Estado. Basta um exemplo e uma prova disso: a preocupação angustiada de Lenin em revolucionar o Aparelho Ideológico do Estado educacional (entre outros), simplesmente para possibilitar ao proletariado soviético, que havia tomado o poder do Estado, garantir o futuro da ditadura do proletariado e a transição para o socialismo.
Em suma, a "função" dos Aparelhos Ideológicos de Estado, ao operar pela ideologia, é assegurar a adesão e a conformidade dos indivíduos aos papéis que lhes são atribuídos na sociedade de classes (explorados, exploradores, agentes da exploração/repressão), garantindo assim a reprodução contínua das relações de produção capitalistas.
2.3.CONCEITO DE IDEOLOGIA ALTHUSSERIANO E INTERPRELAÇÃO DO SUJEITO
Althusser confere à ideologia um estatuto teórico singular, quebrando com a noção de falsa consciência do materialismo positivista-historicista, presente, por exemplo, na Ideologia Alemã, onde o conceito era visto como pura ilusão, puro sonho, isto é, nada.
O autor avança a proposição, a ideologia não tem história, ou, de forma equivalente, que é eterna. Esta eternidade não significa transcendência, mas sim onipresença (trans-histórica), o que implica uma estrutura e um funcionamento imutáveis em toda a história das sociedades de classes.
Pelo contrário, se eu for capaz de apresentar o projeto de uma teoria da ideologia em geral , e se essa teoria for realmente um dos elementos dos quais dependem as teorias das ideologias, isso implica uma proposição aparentemente paradoxal que expressarei nos seguintes termos: a ideologia não tem história.
A teoria da ideologia de Althusser assenta em duas teses centrais: a primeira tese afirma que a ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com as suas condições reais de existência. Não é o mundo real que é representado, mas a relação (imaginária) dos indivíduos com as relações reais em que vivem, o que explica a deformação imaginária observada. A questão não é porque os homens precisam de uma representação imaginária das suas condições, mas porque a representação da sua relação individual com as relações sociais é necessariamente imaginária.
A segunda tese postula que a ideologia tem uma existência material. As ideias ou representações da ideologia não possuem uma existência espiritual, mas sim material. Uma ideologia existe sempre num aparelho, e nas suas práticas. A crença de um indivíduo em uma ideologia (Deus, dever, justiça etc.) traduz-se em atos materiais inseridos em práticas materiais, reguladas por rituais materiais. O mecanismo que liga a crença à prática é a interpelação. A ideologia interpela os indivíduos concretos como sujeitos concretos. Esta interpelação transforma os indivíduos em sujeitos, sendo que estes são, de fato, sempre-já sujeitos.
O funcionamento da ideologia, responsável por assegurar a submissão dos indivíduos e, consequentemente, a reprodução das relações sociais de dominação, opera de modo estrutural e contínuo. Para Althusser, a ideologia não reflete as condições reais de existência, mas a relação imaginária dos indivíduos com essas condições. Seu mecanismo essencial é a interpelação, pela qual a ideologia interpela os indivíduos concretos como sujeitos concretos.
Sugerirei então que a ideologia 'age' ou 'funciona' de tal forma que 'recruta' sujeitos entre os indivíduos (recruta todos eles), ou 'transforma' os indivíduos em sujeitos (transforma todos eles) por meio dessa operação muito precisa que chamei de interpelação ou chamada, e que pode ser imaginada nos moldes da chamada policial (ou de outra pessoa) mais comum do dia a dia: 'Ei, você aí!'
O indivíduo é sempre-já sujeito, constituído por esse processo, que se organiza de forma especular em torno de um sujeito absoluto — modelo encontrado, por exemplo, na ideologia religiosa. Assim, o indivíduo reconhece-se como sujeito livre, mas esse reconhecimento serve justamente para que ele se submeta voluntariamente à ordem estabelecida, assegurando, desse modo, a reprodução do sistema social.
A categoria de sujeito (que pode ser a alma, Deus, ou o sujeito de direito) é constitutiva de toda a ideologia. No mecanismo de interpelação, o indivíduo é interpelado como sujeito livre para que aceite (livremente) a sua sujeição às ordens do Sujeito (com letra maiúscula). É neste duplo sentido de sujeito - centro de iniciativas e ser submetido - que reside o mistério do sistema: o sujeito realiza sozinho os atos de sua sujeição, o que resulta na reprodução das relações de produção
Com isso, Althusser rompe com a noção de sujeito autônomo do humanismo clássico, revelando que toda subjetividade é efeito ideológico, produzida pela interpelação material das práticas sociais.
2.4.A MÍDIA COMO APARELHO IDEOLÓGICO DE ESTADO
No quadro dos AIEs, Althusser lista o AIE da informação (imprensa, rádio-televisão) como um dos aparelhos que concorre para o resultado comum da reprodução das relações de exploração capitalistas. O AIE da informação exerce sua função ideológica de maneira específica, embutindo, através da imprensa, do rádio, da televisão, em todos os cidadãos, doses quotidianas, segundo o autor de nacionalismo, chauvinismo, liberalismo, moralismo etc.
A mídia, neste sentido, é um vetor da ideologia dominante que assegura que os sujeitos concretos sejam recheados da ideologia que convém ao papel que ela deve desempenhar na sociedade de classes. Através desta inculcação, a mídia (juntamente com outros AIEs) garante que os sujeitos reconheçam o estado de coisas existente das Bestehende1 e ajam sozinhos livremente submetidos. Embora a escola seja considerada o AIE dominante nas formações capitalistas maduras, a mídia é essencial para a ação ideológica de massa e para a difusão da partitura única da classe dominante, que integra temas como nacionalismo, moralismo e economicismo.
Bourdieu aprofunda essa compreensão ao introduzir o conceito de poder simbólico, isto é, o poder de impor classificações e significados sociais que por parecerem naturais, tornam-se instrumentos eficazes de dominação. Como afirma o autor, trata-se do poder de “impor — e até inculcar — instrumentos de conhecimento e expressão arbitrários [...] da realidade social” (BOURDIEU, 1989, p. 11).
Sob essas afirmações, a mídia não apenas difunde ideologias, mas estrutura o modo como o mundo social é percebido e compreendido. Ela funciona como um dos instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento que asseguram a dominação de uma classe sobre outra. A eficácia desse poder reside justamente no seu caráter invisível e dissimulado, pois ele dissimula a função de divisão na função de comunicação.
A mídia, portanto, opera como espaço de homologia estrutural entre o campo simbólico e o campo das classes sociais. As lutas internas no campo midiático — por prestígio, credibilidade ou audiência — são, em última instância, formas eufemizadas das lutas econômicas e políticas.
Nesse sentido, o AIE da informação traduz e legitima as relações de poder econômico e político em linguagem cultural e comunicativa, disfarçando a dominação sob o véu da neutralidade jornalística ou da objetividade técnica. Como observa Althusser, o pensamento dos especialistas (intelectuais, cientistas, jornalistas) depende, em última instância, do sistema ideológico dominante da sociedade.
Ao transmitir essas representações, a mídia garante o consentimento das massas, realizando, como escreve Sampedro, a “repetição de um marco condicional imposto por interesses extrateóricos — religiosos, morais ou políticos” (SAMPEDRO, 2010, p. 37). A mídia, portanto, concorre para o resultado comum de assegurar que cada massa de indivíduos, recheada da ideologia que convém ao seu papel, exerça sua função na sociedade de classes.
3.A SUSPENSÃO DA REDE SOCIAL X E O CONFLITO IDEOLÓGICO
A presente pesquisa fundamenta sua análise em um corpus específico: a notícia sobre a suspensão da rede social X (anteriormente Twitter) no Brasil, determinada por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em agosto de 2024. O corpus, veiculado pela imprensa nacional, não é tratado apenas como um relato factual, mas como uma materialidade discursiva que revela a dinâmica conflitiva entre o Estado e o Aparelho Ideológico de Estado (AIE) da informação, articulando as dimensões de dominação ideológica e poder simbólico.
O evento central do objeto é a decisão judicial que determinou a suspensão das atividades da plataforma X no Brasil. A ordem foi proferida após a empresa, de propriedade de Elon Musk, descumprir determinações da Justiça brasileira, recusando-se a indicar um representante legal no país e a remover perfis que veiculavam conteúdos golpistas e de ataque às instituições, acumulando multas que totalizavam R$ 18,3 milhões de reais.
3.1.ANÁLISE METODOLÓGICA DO CORPUS
Sob a ótica da teoria marxista estruturalista, o episódio configura uma crise na reprodução das relações de produção, na qual a superestrutura se manifesta de forma explícita. A plataforma X pode ser identificada como um componente do AIE da informação, embora de natureza privada, cumpre a função social de inculcar a ideologia dominante na vida cotidiana.
A suspensão do serviço explicita um confronto entre dois aparelhos de Estado: O Aparelho Repressivo de Estado (ARE), representado pelo Judiciário (STF/Moraes), que atua pela coerção — através de ordens, multas e bloqueios — garantindo as condições políticas da reprodução das relações de produção e para assegurar a hegemonia da ideologia dominante. A ordem de suspensão, apesar de repressiva e de funcionar predominantemente pela força, ele também funciona secundariamente pela ideologia, por exemplo, defendendo valores como (garantir a ordem, a lei, a defesa das instituições); E o Aparelho Ideológico de Estado (AIE) da informação/comunicação, representada pela empresa (X), que ao resistir às ordens, declara a luta pela hegemonia ideológica — luta sem a qual a dominação de classe não pode ser exercida de modo duradouro.
A materialidade da ideologia, que para Althusser se concretiza em práticas materiais, manifesta por meio das práticas discursivas e das reações públicas dos agentes envolvidos. Elon Musk, ao afirmar que o ministro Alexandre de Moraes seria “um ditador e uma fraude”, converte o conflito jurídico em uma batalha pela definição legítima da realidade social.
A recusa da plataforma em cumprir as determinações judiciais — exemplifica a ação da ideologia interpelando indivíduos como sujeitos. Os AIEs constituem “o lugar da luta de classes”. A resistência da plataforma — ao declarar que não seguiria “ordens ilegais e secretas” — e a propagação de discursos considerados subversivos configuram manifestações concretas desse embate. O exercício hegemônico da classe dominante requer o controle sobre os AIEs, de modo a garantir a reprodução do sistema. Assim, a ação repressiva do STF expressa a tentativa do poder constituído de reconquistar o terreno ideológico diante de forças antagônicas.
A intervenção judicial é apresentada como necessária para restabelecer a ordem e o cumprimento da lei.
Moraes tomou a decisão após a empresa não obedecer a uma ordem do ministro de instituir um representante legal no país. Na quarta (28), Moraes deu 24h para o X atender essa determinação. O prazo venceu às 20h07 desta quinta (29), e o X escreveu que não obedeceria o que chamou de "ordem ilegal".
Esse trecho revela a função clássica do Aparelho Repressivo de Estado, que atua para garantir as condições políticas da reprodução das relações de produção — aqui, sob a forma da manutenção da ortodoxia simbólica, ou seja, da definição legítima da verdade. Ao determinar a suspensão da plataforma por descumprimento de ordens judiciais relativas à remoção de conteúdos golpistas e ataques às instituições, o STF age para impedir que a esfera ideológica da comunicação se converta em veículo de difusão de ideologias subversivas. A intervenção, portanto, reafirma a hegemonia da classe dominante, ao proteger as condições políticas necessárias à sua manutenção.
30 de agosto: Moraes dá 24 horas para Anatel e operadoras tirarem o X do ar. E prevê multa de R$ 50 mil para qualquer pessoa ou empresa que use qualquer subterfúgio (como VPNs) para contornar o bloqueio e acessar a rede social.
As sanções impostas — multas diárias de R$ 50 mil e restrições ao uso de VPNs — ilustram o funcionamento do ARE mediante a coerção. Essas medidas visam estender o controle estatal, tanto pela via material quanto simbólica, disciplinando o comportamento dos sujeitos e reforçando a submissão às normas jurídicas. A eficácia última da suspensão não reside em seu aspecto técnico, mas em seus efeitos ideológicos.
Desse modo, o corpus configura-se como um documento paradigmático dos mecanismos de reprodução ideológica. Ele evidencia como o Aparelho Ideológico de Estado (AIE) da informação busca assegurar uma comunicação aparentemente neutra, mas que, em última instância, sustenta os interesses da classe dominante — mesmo quando submetido à coerção do Aparelho Repressivo de Estado (ARE). O bloqueio da plataforma, longe de significar a interrupção da ideologia, expressa a sua efetivação material: os indivíduos continuam a praticar, de forma espontânea, os atos de sujeição, enquanto as narrativas midiáticas reconfiguram o episódio coercitivo segundo a ideologia liberal da liberdade de expressão — um disfarce simbólico da dominação de classe.
O conflito torna-se mais evidente quando o representante da plataforma X procura subverter a legitimidade do poder judicial. A notícia reproduz a declaração de Elon Musk: “Ele é um ditador e uma fraude, não um juiz.” Esse enunciado constitui um ato discursivo material, na medida em que desafia a doxa, isto é, o consenso social sobre o que é considerado legítimo. Ao empregar termos como “ditador” e “fraude”, o sujeito discursivo tenta redefinir as categorias de percepção do real, deslocando o Ministro do espaço simbólico da justiça para o da arbitrariedade.
Trata-se de uma tentativa de inversão ideológica, pela qual o enunciador interpela os usuários da plataforma como sujeitos livres, apresentando o Estado como instância opressora. O discurso da liberdade de expressão é, assim, mobilizado como retórica de resistência, mas opera de forma ambígua: sob a aparência de contestação, reproduz o núcleo da ideologia dominante, fundada na crença liberal da autonomia individual. Nessa dinâmica, a violência simbólica manifesta-se de modo disfarçado, pois o gesto de “libertar” reafirma a sujeição ideológica que garante a perpetuação das relações de dominação.
Desse modo, o corpus jornalístico evidencia um campo de disputa em que o poder ideológico do AIE da informação confronta o poder repressivo do Estado, reproduzindo no espaço midiático as formas simbólicas das lutas políticas e econômicas entre as classes. Tal articulação confirma, à luz de Althusser (1985), que a ideologia não apenas oculta a dominação, mas a realiza materialmente nos próprios atos e discursos dos sujeitos.
4.CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo expõe a teoria dos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIEs), de Louis Althusser, para investigar o papel da mídia na reprodução da ideologia dominante. Foram estabelecidos três objetivos específicos: (1) discutir os conceitos de ideologia e AIEs; (2) identificar marcas discursivas de interpelação e naturalização nos discursos midiáticos; e (3) analisar a função da mídia na legitimação de valores hegemônicos.
A análise alcançou integralmente os objetivos propostos. O arcabouço teórico marxista de Althusser permitiu compreender com precisão os mecanismos que sustentam a reprodução das relações sociais e de poder no capitalismo contemporâneo.
O primeiro objetivo foi atingido com a explicitação da teoria althusseriana do Estado e da ideologia. Confirmou-se que a mídia integra o AIE da informação, responsável por difundir valores e representações que reforçam as estruturas de dominação. Assim como outros aparelhos — escolar, religioso ou familiar —, o AIE midiático contribui para a reprodução das relações de produção, isto é, das formas de exploração capitalista.
Foi estabelecida a distinção essencial entre o Aparelho Repressivo de Estado (ARE), que atua predominantemente pela força, e os AIEs, que operam de modo difuso, por meio da ideologia. A hegemonia da classe dominante manifesta-se, portanto, sobre e dentro desses aparelhos.
A ideologia foi compreendida, conforme Althusser (1985), como a representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência, dotada de existência material inscrita em práticas e rituais. Trata-se de um sistema sem história própria, mas permanente, que atravessa todas as formações sociais.
O segundo objetivo foi cumprido ao demonstrar como a mídia realiza o mecanismo central da ideologia: a interpelação. A ideologia tem por função constituir os indivíduos em sujeitos. Quando interpelado — como no exemplo clássico “Ei, você aí!” —, o indivíduo reconhece-se como sujeito livre, moral e responsável. Essa forma de reconhecimento é, na verdade, o primeiro efeito da sujeição.
O funcionamento da ideologia exige que o indivíduo seja interpelado como livre, para que aceite voluntariamente sua própria submissão às ordens do Sujeito — aqui representado pelo Estado, pela Lei ou pela autoridade discursiva. A “ideologia da ideologia”, como aponta Althusser, consiste precisamente em negar esse caráter ideológico, fazendo com que os sujeitos creiam estar fora dela.
No campo midiático, a interpelação manifesta-se na naturalização de valores, comportamentos e hierarquias. A mídia impõe sistemas de classificação e esquemas de percepção ajustados às estruturas sociais, convertendo a ordem vigente em algo natural e legítimo. Como observa Althusser, a imprensa, o rádio e a televisão “entopem todos os cidadãos de doses diárias de nacionalismo, moralismo e liberalismo”, produzindo o consenso ideológico necessário à manutenção da hegemonia.
A análise demonstrou que a mídia participa ativamente da luta simbólica pela definição do mundo social. A comunicação, tradicional ou digital, constitui espaço privilegiado de violência simbólica (BOURDIEU, 1989), por meio da qual a classe dominante impõe suas categorias de percepção e sua visão de mundo.
Os sistemas simbólicos — entre eles, a mídia — são instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento, com função política de legitimação da dominação. Eles produzem uma integração fictícia entre as classes, sustentando a ilusão de consenso e de igualdade formal, ao mesmo tempo que reproduzem a subordinação ideológica dos dominados.
Por meio dessas práticas discursivas, a mídia opera como um espaço de adaptação ideológica. Suas técnicas e narrativas articulam-se às ideologias científicas e filosóficas, orientando formas de pensamento e comportamento compatíveis com a lógica do capital.
Os resultados confirmam que a mídia, como Aparelho Ideológico de Estado, não é um campo neutro de informação, mas um dispositivo de legitimação das relações de poder. Sua função é reproduzir as condições ideológicas que sustentam o modo de produção capitalista, assegurando a continuidade da dominação sob a aparência de liberdade. A análise althusseriana, portanto, revela que a luta ideológica se realiza não apenas no campo político ou econômico, mas também — e sobretudo — no terreno simbólico da comunicação.
Das Bestehende quer dizer o estado de coisas existente, é o mundo social tal como ele se apresenta e é aceito como inquestionavelmente verdadeiro.↩︎
REFERÊNCIAS
———. Aparelhos Ideológicos de Estado: notas para uma investigação. Lisboa: Editorial Presença, 1970. p. 41–52.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa: Editorial Presença, 1980.
NAVES, Márcio Bilharinho (org.). Presença de Althusser. Campinas: Editora Unicamp, 1997. (Coleção Ideias, 9).
SAMPEDRO, Francisco. A teoria da ideologia de Althusser. In: NAVES, Márcio Bilharinho (Org.). Presença de Althusser. Campinas, SP: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2010. p. 31-52.
TELEVISÃO É MEIO MAIS POPULAR PARA ACESSAR NOTÍCIAS NO BRASIL, DIZ PESQUISA. ACAERT. Florianópolis, 11/09/2024. Disponível em: https://www.acaert.com.br/noticia/54743/televisao-e-meio-mais-popular-para-acessar-noticias-no-brasil-diz-pesquisa. Acesso em: 30 out. 2025.
G1. Rede social X suspensa no Brasil. G1 — Tecnologia, 31 ago. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2024/08/31/rede-social-x-suspensa-no-brasil.ghtml. Acesso em: 01 nov. 2025.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Coleção Os Economistas). Disponível em: http://www.mom.arq.ufmg.br/mom/02_babel/textos/marx-capital-1-portugues.pdf. Acesso em: 4 nov. 2025.
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