Karl Kraus: biografia, principais obras, frases e legado
Karl Kraus foi um dos mais influentes escritores, jornalistas e satiristas de língua alemã do início do século XX. Conhecido por sua crítica severa à imprensa, à política, ao militarismo e ao uso descuidado da linguagem, construiu uma obra marcada pela independência intelectual e pela resistência às convenções de seu tempo.
Karl Kraus
28 de abril de 1874 – 12 de junho de 1936
Escritor, jornalista, satirista, dramaturgo, poeta e crítico da linguagem
Quem foi Karl Kraus?
Karl Kraus foi um escritor austríaco que se destacou como jornalista, ensaísta, dramaturgo, poeta, conferencista e autor de aforismos. Embora tenha atuado em diferentes gêneros, sua produção manteve uma preocupação constante: compreender como a linguagem pode ser utilizada para manipular a realidade, justificar a violência e influenciar a maneira como as pessoas interpretam o mundo.
Kraus acreditava que a deterioração da linguagem não era apenas um problema de gramática ou de estilo. Para ele, as palavras revelavam a qualidade moral de uma sociedade. Quando jornalistas, políticos e intelectuais utilizavam expressões vazias, frases feitas ou exageros propagandísticos, não estavam somente escrevendo mal: estavam colaborando para a deformação do pensamento.
Um de seus aforismos mais conhecidos resume seu olhar crítico sobre a formação humana:
“Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.”
A frase corresponde ao aforismo alemão “Bildung ist das, was die meisten empfangen, viele weitergeben und wenige haben”, publicado por Kraus e posteriormente reunido em Pro domo et mundo.
A formulação demonstra uma característica central de seu estilo: transformar uma observação aparentemente simples em uma crítica profunda às instituições, às convenções sociais e à distância que pode existir entre instrução formal e verdadeira formação intelectual.
Nascimento e origem familiar
Karl Kraus nasceu em 28 de abril de 1874, na cidade de Jičín, chamada Gitschin em alemão, na região da Boêmia. Naquele período, o território fazia parte do Império Austro-Húngaro e atualmente pertence à República Tcheca.
Era filho de Jakob Kraus, fabricante e comerciante de papel, e de Ernestine Kraus, nascida Kantor. A família possuía uma situação econômica confortável, circunstância que mais tarde permitiu ao escritor desenvolver projetos editoriais com um grau incomum de independência.
Em 1877, quando Karl tinha aproximadamente três anos, a família mudou-se para Viena. A capital imperial seria o principal cenário de sua formação, de sua carreira e de quase toda a sua vida adulta.
A Viena em que Kraus cresceu era uma cidade marcada por contrastes. Ao mesmo tempo que se destacava como centro artístico e intelectual, apresentava profundas tensões políticas, sociais e étnicas. O crescimento da imprensa popular, a transformação dos costumes e a crise do Império Austro-Húngaro forneceriam grande parte do material que posteriormente alimentaria sua obra satírica.
Infância, teatro e formação cultural
Durante a juventude, Kraus recebeu uma educação humanística e estudou no Gymnasium Stubenbastei, uma instituição tradicional de Viena. O ensino humanístico privilegiava o contato com literatura, história, línguas clássicas e cultura europeia.
Desde a década de 1880, o jovem Kraus também foi profundamente impressionado pelo teatro vienense, especialmente pelas apresentações do Burgtheater. O interesse pelos palcos não foi passageiro: ele tentou atuar como ator, diretor e declamador antes de se consolidar como escritor e jornalista.
Essa experiência contribuiu para desenvolver sua percepção da sonoridade, do ritmo e da força dramática das palavras. Décadas mais tarde, suas leituras públicas seriam conhecidas justamente pela capacidade de reproduzir vozes, entonações, pausas, gestos e diferentes maneiras de falar.
Em vez de separar escrita e oralidade, Kraus compreendia a linguagem como uma experiência viva. Para ele, um texto precisava ser ouvido, interpretado e colocado à prova pela voz de quem o pronunciava.
A passagem pela Universidade de Viena
Após concluir o ensino secundário, Karl Kraus ingressou na Universidade de Viena. Em 1892, iniciou os estudos de Direito. Aproximadamente dois anos depois, abandonou essa área e passou a frequentar disciplinas de Filosofia e Literatura e Filologia Germânica.
Kraus permaneceu na universidade até 1896, mas não concluiu nenhum curso nem obteve um diploma. Sua formação intelectual, portanto, não seguiu uma carreira acadêmica convencional.
A ausência de uma graduação não significou falta de estudo. Durante esses anos, ele leu intensamente, aproximou-se do teatro, participou de círculos literários e começou a publicar críticas sobre literatura e espetáculos em periódicos austríacos e alemães.
Seu percurso mostra que sua formação ocorreu tanto nas salas universitárias quanto nos teatros, nos cafés, nas redações jornalísticas e no contato direto com os debates culturais da Viena do final do século XIX.
O início da carreira literária
Ainda jovem, Kraus aproximou-se do grupo literário conhecido como Jung-Wien, ou Jovem Viena. Entre os escritores relacionados ao grupo estavam nomes como Arthur Schnitzler, Hugo von Hofmannsthal, Hermann Bahr e Peter Altenberg.
Os integrantes costumavam reunir-se em cafés vienenses para discutir literatura, arte, teatro e as novas tendências culturais. Inicialmente, Kraus participou desse ambiente e estabeleceu amizades com vários de seus representantes.
Com o tempo, porém, passou a considerar aquela vida literária excessivamente dependente de modismos, autopromoção e relações entre escritores e jornalistas. A ruptura tornou-se pública com a sátira Die demolirte Literatur, publicada entre 1896 e 1897.
A obra atacava a literatura dos cafés vienenses e ironizava autores que, segundo Kraus, estavam mais preocupados com prestígio e visibilidade do que com a qualidade da escrita.
O texto obteve grande repercussão e marcou seu primeiro sucesso público. Também estabeleceu um padrão que acompanharia toda a sua carreira: Kraus aproximava-se de grupos e instituições, mas recusava-se a permanecer subordinado a eles quando percebia contradições entre os discursos e as práticas de seus integrantes.
A criação da revista Die Fackel
Em abril de 1899, aos 24 anos, Karl Kraus fundou sua própria revista, intitulada Die Fackel, expressão alemã que significa “A Tocha”.
A publicação tornou-se o centro de sua atividade intelectual. Por meio dela, Kraus analisou e criticou a imprensa, a política, o sistema judiciário, a literatura, a moralidade pública, o militarismo e diferentes aspectos da vida social vienense.
Nos primeiros anos, a revista também publicou textos de outros escritores, entre eles Peter Altenberg, Frank Wedekind, Detlev von Liliencron e Else Lasker-Schüler. A partir de dezembro de 1911, entretanto, os textos passaram a ser escritos praticamente apenas pelo próprio Kraus.
A independência editorial permitia que ele escolhesse seus temas sem se submeter a anunciantes, partidos políticos ou grandes grupos de imprensa. Essa liberdade, porém, trouxe dificuldades financeiras, conflitos judiciais e numerosos inimigos.
A revista foi publicada até fevereiro de 1936. De acordo com a edição digital mantida pela Academia Austríaca de Ciências, o conjunto de Die Fackel reúne:
- 37 volumes;
- 415 edições físicas;
- 922 números editoriais;
- 22.586 páginas;
- mais de seis milhões de formas de palavras.
O resultado é uma das maiores obras individuais da imprensa e da literatura de língua alemã do século XX.
A crítica à imprensa e ao uso da linguagem
O principal alvo de Kraus era a imprensa de seu tempo. Ele não considerava os jornais simples meios de comunicação, mas agentes capazes de criar ambientes políticos, impor interpretações e transformar acontecimentos em espetáculos.
Seu problema não era apenas a existência de erros factuais. Kraus criticava a maneira como manchetes, expressões repetidas e frases prontas limitavam a capacidade de reflexão dos leitores.
Para ele, uma linguagem corrompida poderia tornar aceitáveis comportamentos igualmente corrompidos. Quando a violência era apresentada com palavras heroicas, por exemplo, o público poderia deixar de perceber o sofrimento real escondido por trás da propaganda.
Essa concepção explica a atenção quase obsessiva que dedicava à construção das frases, à pontuação, à escolha das palavras e à reprodução de citações. Em seus textos, uma vírgula fora do lugar ou uma expressão mal formulada podia servir como indício de um problema moral ou político muito maior.
Sua crítica à linguagem não era, portanto, um exercício de perfeccionismo vazio. Tratava-se de uma tentativa de preservar a capacidade de pensar em uma época dominada pela velocidade da informação e pela repetição de discursos prontos.
Os aforismos e o desenvolvimento de seu estilo
Karl Kraus tornou-se um dos mais importantes autores de aforismos em língua alemã. O aforismo é uma formulação breve que apresenta uma reflexão, uma crítica ou um paradoxo de maneira concentrada.
Em 1909, publicou Sprüche und Widersprüche, título que pode ser traduzido aproximadamente como “Ditos e contradições”.
Seus aforismos não procuravam oferecer regras fáceis para a vida. Frequentemente, apresentavam ironias e contradições que obrigavam o leitor a desconfiar das certezas estabelecidas.
A famosa frase sobre educação é um exemplo desse procedimento. Em poucas palavras, Kraus separa a instrução recebida, o conhecimento transmitido e a verdadeira formação possuída pelo indivíduo.
Ao longo dos anos, seu estilo tornou-se progressivamente mais concentrado, elaborado e exigente. O autor transformava fragmentos de jornais, anúncios, discursos políticos e conversas cotidianas em matéria literária.
As leituras públicas e sua presença no palco
Além de escrever, Kraus tornou-se conhecido por suas apresentações públicas. A partir de 1910, passou a realizar leituras de obras próprias e de escritores que admirava.
Até o final da vida, apresentou-se aproximadamente 700 vezes diante do público. Nessas ocasiões, lia poemas, peças, ensaios, textos satíricos e adaptações de autores como William Shakespeare, Johann Nestroy, Johann Wolfgang von Goethe e Jacques Offenbach.
Seus eventos iam além de uma leitura convencional. Kraus alterava a voz, interpretava personagens, reproduzia sotaques e explorava silêncios, gestos e ritmos.
Embora demonstrasse grande segurança diante da plateia, relatos biográficos indicam que era reservado em sua vida privada e podia sentir intenso nervosismo antes das apresentações.
Essa diferença entre o homem reservado e o orador poderoso contribuiu para a construção de sua imagem pública. Seus admiradores viam nele uma espécie de autoridade moral capaz de denunciar, por meio da palavra, as contradições de uma sociedade inteira.
Karl Kraus e a Primeira Guerra Mundial
A eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, representou um momento decisivo em sua trajetória.
Enquanto muitos jornais austríacos e alemães celebravam a guerra com linguagem patriótica e heroica, Kraus assumiu uma posição crítica e progressivamente pacifista.
Nos primeiros meses do conflito, permaneceu em silêncio. Em dezembro de 1914, publicou o ensaio In dieser großen Zeit, ou “Nesta grande época”, no qual acusava a imprensa de produzir a linguagem que tornava a guerra imaginável, aceitável e até desejável para o público.
Durante o conflito, números de Die Fackel foram confiscados pelas autoridades por causa das críticas à política de guerra austríaca. A censura tornou-se mais um dos desafios enfrentados pelo escritor.
Para Kraus, a imprensa não apenas relatava as batalhas: ela preparava culturalmente os cidadãos para aceitá-las. Sua crítica mostrava como expressões patrióticas podiam ocultar mortes, destruição e interesses políticos.
Os últimos dias da humanidade
Em 1915, Kraus começou a escrever aquela que se tornaria sua obra mais conhecida: Die letzten Tage der Menschheit, traduzida como Os últimos dias da humanidade.
Partes do drama apareceram inicialmente em Die Fackel. Edições especiais foram publicadas em 1918 e 1919, enquanto a primeira edição completa em livro surgiu em 1922.
A peça apresenta centenas de personagens e cenas inspiradas na Primeira Guerra Mundial. Aproximadamente metade de seus diálogos foi construída a partir de citações reais de jornais, discursos e conversas ouvidas por Kraus nas ruas de Viena.
Ao reproduzir essas falas, o autor procurava mostrar que a própria linguagem da sociedade já revelava a dimensão absurda e desumana da guerra.
A obra é tão extensa que Kraus afirmou ironicamente que sua representação integral seria adequada a um “teatro em Marte”. Mesmo atualmente, montagens completas são extremamente difíceis.
Mais do que reconstruir acontecimentos militares, o drama responsabiliza jornalistas, políticos, militares, empresários e cidadãos comuns pela manutenção do ambiente cultural que permitiu a guerra.
Vida religiosa e posicionamento independente
Karl Kraus nasceu em uma família judaica. Em 1899, desligou-se oficialmente da comunidade religiosa judaica.
Em 1911, converteu-se ao catolicismo. Contudo, em 1923, também deixou formalmente a Igreja Católica.
Essas mudanças demonstram que sua relação com instituições religiosas foi complexa e marcada por sucessivos afastamentos. Ele resistia a compromissos duradouros com organizações que pudessem limitar sua liberdade crítica.
Isso não significa que tenha permanecido livre de contradições. Algumas de suas posições sobre identidade, gênero, política e cultura continuam sendo debatidas por estudiosos.
Sua obra deve ser compreendida dentro das tensões da sociedade austro-húngara, na qual conviviam assimilação cultural, antissemitismo, nacionalismos e disputas entre diferentes projetos políticos.
Vida pessoal e relacionamento com Sidonie Nádherný
Karl Kraus nunca se casou. A relação afetiva mais importante de sua vida foi estabelecida com a baronesa tcheca Sidonie Nádherný von Borutin, que ele conheceu em 1913.
O relacionamento foi longo, intenso e marcado por aproximações e afastamentos. Kraus chegou a manifestar intenção de se casar, mas o casamento não se realizou.
A correspondência entre os dois, mantida até 1936, reúne mais de mil cartas, cartões e telegramas. Esses documentos revelam uma dimensão mais pessoal de um escritor frequentemente lembrado apenas por sua agressividade pública.
Sidonie tornou-se interlocutora, confidente e destinatária de poemas e textos. Kraus também passou períodos no castelo de Janowitz, pertencente à família dela, onde trabalhou em diferentes partes de sua obra.
As cartas mostram um homem capaz de profunda afeição, insegurança e dependência emocional, características que contrastam com a imagem do polemista inflexível apresentada em suas intervenções públicas.
Conflitos, polêmicas e desafios
A carreira de Kraus foi atravessada por conflitos. Suas críticas atingiam jornalistas, escritores, políticos, policiais, juristas e instituições culturais.
Ele enfrentou processos judiciais, campanhas de difamação, censura e dificuldades financeiras relacionadas à manutenção de sua revista. A independência que lhe permitia criticar diferentes grupos também contribuiu para seu isolamento.
Na década de 1920, envolveu-se em campanhas contra práticas que considerava corruptas na imprensa de Viena. Também atacou a atuação policial após os conflitos de julho de 1927, quando dezenas de pessoas foram mortas durante confrontos na capital austríaca.
Seu método era implacável. Kraus selecionava palavras, contradições e declarações públicas de seus adversários e as transformava em instrumentos de acusação.
Essa postura fez com que fosse admirado como defensor da integridade da linguagem, mas também criticado por sua intolerância, severidade e incapacidade de reconhecer limites em algumas de suas campanhas.
A ascensão do nazismo
Durante a década de 1930, Karl Kraus percebeu o crescimento do nacional-socialismo como uma ameaça à cultura, à linguagem e à própria humanidade.
Em 1933, após Adolf Hitler assumir o poder na Alemanha, Kraus começou a escrever Die dritte Walpurgisnacht, ou A terceira noite de Walpurgis.
O texto analisa discursos, notícias e manifestações produzidas pelos nazistas e por seus simpatizantes. Kraus examinou como o regime transformava mentiras em realidade política por meio da repetição, da propaganda e da violência.
Apesar de concluir o extenso ensaio, decidiu não publicá-lo integralmente naquele momento. Entre os motivos discutidos por pesquisadores estão o risco de represálias e a dificuldade de imaginar que a sátira pudesse responder adequadamente à dimensão da violência nazista.
Em 1934, publicou partes do material no número especial Warum die Fackel nicht erscheint, ou “Por que Die Fackel não aparece”. A versão completa de Die dritte Walpurgisnacht seria publicada somente em 1952, dezesseis anos após sua morte.
Contradições políticas nos últimos anos
Os anos finais de Kraus foram marcados por escolhas políticas controversas. Temendo a expansão nazista sobre a Áustria, ele apoiou Engelbert Dollfuss, governante autoritário austríaco, por considerá-lo uma possível barreira contra Hitler.
Essa posição afastou parte de seus antigos admiradores ligados à esquerda, incluindo intelectuais que anteriormente o viam como uma referência de crítica social.
O episódio mostra uma das contradições mais difíceis de sua trajetória: na tentativa de resistir ao nacional-socialismo, Kraus aproximou-se de um governo que também restringia liberdades políticas.
Seu isolamento aumentou. A autoridade pública que alcançara nas décadas anteriores já não era recebida com a mesma unanimidade por uma sociedade cada vez mais dividida entre projetos autoritários.
Ainda assim, seus textos sobre o nazismo demonstram que compreendeu precocemente o papel da propaganda, da mentira organizada e da destruição da linguagem na consolidação de regimes totalitários.
Os últimos meses e a morte de Karl Kraus
O último número de Die Fackel foi publicado em fevereiro de 1936. Depois de 37 anos, a revista que havia acompanhado as transformações da Áustria e da Europa chegava ao fim.
Karl Kraus morreu em 12 de junho de 1936, em Viena, aos 62 anos.
Sua morte ocorreu menos de dois anos antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazista, realizada em março de 1938. Ele não presenciou a concretização plena da catástrofe que havia antecipado em seus últimos escritos.
Kraus foi sepultado no Cemitério Central de Viena. Deixou uma obra extensa, composta por revistas, ensaios, peças, poemas, aforismos, adaptações teatrais e registros de apresentações públicas.
O legado de Karl Kraus
Karl Kraus permanece relevante porque compreendeu que o poder não atua apenas por meio de leis, armas ou instituições. Ele também opera pelas palavras utilizadas para descrever os acontecimentos.
Sua crítica antecipou problemas que se tornaram ainda mais evidentes com o crescimento dos meios de comunicação de massa e, posteriormente, das redes sociais:
- a transformação da notícia em espetáculo;
- a repetição de informações não verificadas;
- o uso político do medo e da indignação;
- a substituição da análise por frases prontas;
- a influência dos meios de comunicação sobre a percepção da realidade;
- a normalização da violência por meio da linguagem;
- a dificuldade de distinguir informação, propaganda e entretenimento.
Sua obra influenciou escritores e pensadores como Walter Benjamin, Elias Canetti, Bertolt Brecht e Theodor W. Adorno.
Em 1947, foi criada em Viena a Sociedade Karl Kraus, dedicada ao estudo e à preservação de sua produção.
Atualmente, o acervo completo de Die Fackel pode ser consultado digitalmente. A preservação de suas páginas permite acompanhar quase quatro décadas da história europeia por meio do olhar de um escritor que fez da linguagem seu principal instrumento de investigação.
Linha do tempo da vida de Karl Kraus
- 1874: nasce em 28 de abril, em Jičín, na Boêmia.
- 1877: muda-se com a família para Viena.
- 1892: inicia os estudos de Direito na Universidade de Viena.
- 1894: passa a estudar Filosofia e Literatura Germânica.
- 1896: deixa a universidade sem concluir a graduação.
- 1896–1897: publica a sátira Die demolirte Literatur.
- 1899: funda a revista Die Fackel.
- 1909: publica a coletânea de aforismos Sprüche und Widersprüche.
- 1910: inicia uma longa trajetória de leituras públicas.
- 1911: torna-se praticamente o único autor de Die Fackel.
- 1913: conhece Sidonie Nádherný von Borutin.
- 1914: publica o ensaio pacifista In dieser großen Zeit.
- 1915: começa a escrever Os últimos dias da humanidade.
- 1918–1919: partes do drama são publicadas em edições especiais de Die Fackel.
- 1922: é publicada a primeira edição completa em livro de Os últimos dias da humanidade.
- 1933: escreve Die dritte Walpurgisnacht sobre a ascensão nazista.
- 1936: publica o último número de Die Fackel e morre em Viena, em 12 de junho.
- 1952: publicação póstuma integral de Die dritte Walpurgisnacht.
Por que Karl Kraus ainda deve ser lido?
Ler Karl Kraus é perceber que a linguagem nunca é completamente neutra. As palavras podem informar, esclarecer e educar, mas também podem ocultar, simplificar e manipular.
Sua principal contribuição não consiste em oferecer respostas prontas. Ele ensina o leitor a desconfiar das frases excessivamente fáceis, das notícias construídas para provocar reações imediatas e dos discursos que transformam violência em normalidade.
A atualidade de Kraus está justamente em seu método. Antes de aceitar uma afirmação, ele examinava sua forma, sua origem, seus interesses e as consequências produzidas por sua repetição.
Sua vida também mostra que a independência intelectual possui um preço. Kraus conquistou liberdade para criticar diferentes grupos, mas enfrentou censura, processos, isolamento e a perda de antigos admiradores.
Suas próprias contradições impedem que seja transformado em uma figura perfeita. Entretanto, é justamente essa complexidade que torna sua trajetória valiosa: ela permite compreender como um escritor pode ser, ao mesmo tempo, observador lúcido de sua época e participante das tensões políticas que procura analisar.
Bibliografia selecionada das publicações de Karl Kraus
A produção de Karl Kraus é extensa e grande parte dela apareceu originalmente nas páginas de Die Fackel. A relação abaixo apresenta algumas de suas publicações mais importantes, em ordem cronológica.
-
Die demolirte Literatur — 1896–1897.
Sátira sobre os círculos literários e a cultura dos cafés de Viena. -
Die Fackel — 1899–1936.
Revista de crítica política, cultural, jornalística e linguística fundada e dirigida por Kraus. -
Sittlichkeit und Kriminalität — textos iniciados em 1902;
volume publicado em 1908.
Ensaios sobre moralidade, sexualidade, justiça, imprensa e hipocrisia social. -
Maximilian Harden: Ein Nachruf — 1908.
Ensaio crítico dedicado ao jornalista e publicista Maximilian Harden. -
Sprüche und Widersprüche — 1909.
Coletânea de aforismos, paradoxos e reflexões críticas. -
Die chinesische Mauer — 1910.
Reunião de sátiras, ensaios e textos de crítica cultural. -
Heine und die Folgen — 1910.
Ensaio polêmico sobre Heinrich Heine e as transformações da linguagem literária. -
Pro domo et mundo — 1912.
Coletânea de aforismos na qual aparece a conhecida reflexão de Kraus sobre educação. -
Nestroy und die Nachwelt — 1912.
Texto dedicado ao dramaturgo austríaco Johann Nestroy e à recepção de sua obra. -
Worte in Versen — nove volumes publicados entre 1916 e 1930.
Conjunto de sua produção poética. -
Nachts — 1918.
Reunião de aforismos e reflexões breves. -
Weltgericht — 1919.
Coletânea de textos relacionados à guerra, à imprensa e à sociedade europeia. -
Peter Altenberg — 1919.
Obra dedicada ao escritor austríaco Peter Altenberg. -
Die letzten Tage der Menschheit — publicado parcialmente
em 1918–1919; edição completa em livro em 1922.
Monumental drama satírico e antibélico sobre a Primeira Guerra Mundial. -
Literatur oder Man wird doch da sehn — 1921.
Opereta satírica sobre literatura, teatro e movimentos artísticos. -
Traumstück — 1922.
Peça dramática construída em torno de sonho, linguagem e representação. -
Wolkenkuckucksheim — 1923.
Texto dramático e satírico relacionado ao ambiente intelectual de seu tempo. -
Die Unüberwindlichen — 1928.
Peça sobre política, jornalismo e conflitos sociais na Áustria do pós-guerra. -
Literatur und Lüge — 1929.
Coletânea de ensaios sobre literatura, imprensa, mentira e linguagem. -
Warum die Fackel nicht erscheint — 1934.
Número especial em que Kraus explica seu silêncio diante da ascensão nazista e publica partes de seu estudo sobre o regime. -
Die Sprache — 1937, publicação póstuma.
Reunião de reflexões sobre língua, estilo, gramática e responsabilidade intelectual. -
Die dritte Walpurgisnacht — escrita em 1933
e publicada integralmente em 1952.
Análise da propaganda, da imprensa e da linguagem do nacional-socialismo.
Referências bibliográficas
- ARNTZEN, Helmut. Kraus, Karl. In: Neue Deutsche Biographie, v. 12. Berlim: Duncker & Humblot, 1980, p. 694–696. Disponível em: Deutsche Biographie .
- DEUTSCHES HISTORISCHES MUSEUM. Karl Kraus: 1874–1936. Disponível em: Lebendiges Museum Online .
- LINDEN, Ari. Kraus, Karl. In: 1914–1918 Online: International Encyclopedia of the First World War. Freie Universität Berlin, 2014. Disponível em: International Encyclopedia of the First World War .
- ÖSTERREICHISCHE AKADEMIE DER WISSENSCHAFTEN. AAC-FACKEL: edição digital da revista Die Fackel. Disponível em: Die Fackel Digital .
- ÖSTERREICHISCHE AKADEMIE DER WISSENSCHAFTEN. Karl Kraus – Dritte Walpurgisnacht. Disponível em: edição acadêmica digital .
- ÖSTERREICHISCHE NATIONALBIBLIOTHEK. Karl Kraus (1874–1936): escritor, jornalista e crítico. Disponível em: Arquivo de Literatura da Biblioteca Nacional da Áustria .
- ÖSTERREICHISCHE NATIONALBIBLIOTHEK. Sidonie Nádherný von Borutin. Disponível em: catálogo de espólios e arquivos pessoais .
- TIMMS, Edward. Karl Kraus, Apocalyptic Satirist: Culture and Catastrophe in Habsburg Vienna. New Haven: Yale University Press, 1986.
- TIMMS, Edward. Karl Kraus, Apocalyptic Satirist: The Post-War Crisis and the Rise of the Swastika. New Haven: Yale University Press, 2005.
- UNIVERSIDADE DE WASHINGTON. Karl Kraus: Biography. Projeto acadêmico Vienna 1900. Disponível em: Vienna 1900 .
- WIKISOURCE. Karl Kraus: obras e edições digitalizadas. Disponível em: relação cronológica de publicações .
- PROJEKT GUTENBERG. Karl Kraus: textos, aforismos e obras digitalizadas. Disponível em: acervo digital do autor .
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