Quem foi Ferdinand de Saussure e qual seu papel na linguística?

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Ferdinand de Saussure foi um linguista suíço cuja obra transformou profundamente o estudo da linguagem. Nascido em Genebra, em 26 de novembro de 1857, destacou-se ainda jovem nos estudos das línguas indo-europeias e construiu uma carreira acadêmica dedicada à gramática comparada, ao sânscrito, à fonética, à história das línguas e à reflexão sobre o funcionamento dos sistemas linguísticos.

Sua influência tornou-se especialmente ampla depois de sua morte, com a publicação do Curso de Linguística Geral, em 1916. O livro não foi redigido diretamente por Saussure: foi organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye com base em anotações de estudantes que acompanharam seus cursos na Universidade de Genebra. A obra apresentou conceitos que contribuíram para a consolidação da Linguística moderna e influenciaram áreas como a Semiótica, a Antropologia, a Teoria Literária e os estudos da comunicação.

Nome completo

Ferdinand Mongin de Saussure

Quem foi Ferdinand de Saussure?

Ferdinand de Saussure foi um professor e pesquisador especializado inicialmente em Filologia e Gramática Comparada. Esses campos investigavam as relações históricas entre as línguas, procurando reconstruir formas antigas e identificar mudanças ocorridas ao longo do tempo.

Saussure tornou-se conhecido entre os especialistas ainda muito jovem, sobretudo por suas pesquisas sobre as línguas indo-europeias. Entretanto, sua fama mundial está associada principalmente às reflexões sobre a língua como um sistema de relações, apresentadas postumamente no Curso de Linguística Geral.

Seu trabalho ajudou a modificar o objeto central da Linguística. Em vez de estudar somente a origem e a transformação histórica das palavras, Saussure propôs que também era necessário analisar como uma língua funciona em determinado momento, observando as relações que seus elementos estabelecem entre si.

Essa mudança de perspectiva abriu caminho para o desenvolvimento do Estruturalismo, movimento intelectual que alcançou diferentes áreas das Ciências Humanas no século XX.

Nascimento e origem familiar

Saussure nasceu em 26 de novembro de 1857, em Genebra, na Suíça. Pertencia a uma família conhecida pela presença de pesquisadores, estudiosos e cientistas.

Seu pai, Henri de Saussure, dedicou-se à Entomologia e realizou importantes estudos sobre insetos. Entre seus antepassados também estava Horace-Bénédict de Saussure, naturalista, geólogo e explorador associado às pesquisas sobre os Alpes.

O ambiente familiar favorecia o estudo rigoroso da natureza. Esperava-se que Ferdinand seguisse uma carreira semelhante, ligada às Ciências Naturais. Entretanto, desde cedo ele demonstrou maior interesse pelas palavras, pelas línguas antigas e pelas relações existentes entre diferentes idiomas.

Era o filho mais velho de uma família numerosa. Seu desenvolvimento ocorreu em um meio culturalmente privilegiado, no qual a pesquisa, a leitura e a atividade científica possuíam grande prestígio.

Dados biográficos

Nascimento: 26 de novembro de 1857
Cidade: Genebra
País: Suíça

O interesse precoce pelas línguas

Durante a adolescência, Saussure já se interessava pela comparação entre palavras de diferentes línguas. Aos dezessete anos, escreveu um ensaio em que procurava reduzir palavras do grego, do latim e do alemão a um número limitado de raízes.

O trabalho juvenil não possuía ainda a maturidade de suas pesquisas posteriores, mas revelava uma preocupação que acompanharia toda a sua carreira: descobrir princípios capazes de explicar a organização e a transformação das línguas.

Nesse período, começou também a estudar sânscrito, língua antiga da Índia fundamental para o desenvolvimento da gramática comparada no século XIX.

O sânscrito apresentava numerosas correspondências com o grego, o latim, o persa antigo e diferentes línguas europeias. A comparação desses idiomas permitiu aos estudiosos formular hipóteses sobre uma língua ancestral comum, atualmente denominada protoindo-europeu.

Como foi a escolaridade de Saussure?

Saussure realizou seus estudos básicos em Genebra. Frequentou instituições de ensino da cidade, estudou grego e latim e demonstrou excelente desempenho nas disciplinas relacionadas às línguas.

Em 1875, seguindo inicialmente o desejo de sua família, matriculou-se na Universidade de Genebra para estudar Física e Química. Ao mesmo tempo, frequentava aulas relacionadas à Filosofia, à Filologia e à Linguística.

Sua passagem pelas Ciências Naturais foi breve. Saussure percebeu que sua verdadeira vocação estava no estudo das línguas e decidiu procurar uma formação especializada.

Em 1876, transferiu-se para a Universidade de Leipzig, na Alemanha, então um dos centros mais importantes da gramática comparada. Ali estudou:

  • sânscrito;
  • grego antigo;
  • latim;
  • persa antigo;
  • línguas germânicas;
  • línguas eslavas;
  • celta;
  • lituano;
  • gramática comparada indo-europeia.

Também passou um período em Berlim, ampliando sua formação em línguas antigas e estudos comparativos.

Leipzig e os jovens gramáticos

Quando Saussure chegou a Leipzig, a universidade reunia pesquisadores que estavam modificando profundamente o estudo histórico das línguas. Muitos deles ficaram conhecidos como neogramáticos.

Esses estudiosos defendiam que as mudanças sonoras não aconteciam de forma completamente irregular. Procuravam formular leis capazes de explicar por que determinados sons se transformavam de maneira semelhante em diferentes palavras.

Saussure participou desse ambiente intelectual, mas manteve independência crítica. Embora valorizasse o rigor da investigação histórica, não se limitava à descrição isolada dos sons.

Sua preocupação estava voltada para as relações entre os elementos linguísticos. Ele procurava entender como diferentes fenômenos formavam um conjunto coerente, antecipando o modo estrutural pelo qual mais tarde analisaria a língua.

Uma obra revolucionária escrita na juventude

Em 1878, quando tinha apenas vinte anos, Saussure concluiu o Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes, publicado em Leipzig no ano seguinte.

O título pode ser traduzido como Memória sobre o sistema primitivo das vogais nas línguas indo-europeias.

O jovem pesquisador propôs uma explicação inovadora para algumas irregularidades encontradas nos sistemas vocálicos das línguas indo-europeias. Em vez de tratar cada caso como uma exceção independente, supôs a existência de elementos antigos que haviam desaparecido, mas deixado efeitos perceptíveis nas línguas posteriores.

Décadas depois, o estudo do hitita forneceu evidências favoráveis a parte dessa hipótese. A proposta passou a ser relacionada ao desenvolvimento da teoria das laringais.

O trabalho demonstrou que Saussure já conseguia analisar um sistema linguístico por meio das relações entre elementos presentes e ausentes, uma característica central de sua futura concepção da linguagem.

Primeira grande publicação

Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes — 1879

O doutorado em Leipzig

Em 1880, Saussure apresentou sua tese de doutorado à Universidade de Leipzig.

O trabalho recebeu o título De l’emploi du génitif absolu en sanscrit e foi publicado em Genebra em 1881.

A pesquisa tratava do uso do genitivo absoluto em sânscrito, uma construção sintática que exigia o levantamento e a análise de numerosos exemplos.

Comparada ao estudo inovador sobre as vogais indo-europeias, a tese apresentava um objeto mais delimitado. Entretanto, demonstrava o domínio técnico de Saussure sobre o sânscrito e sobre os métodos filológicos de seu tempo.

Com a conclusão do doutorado, ele estava preparado para iniciar uma carreira acadêmica como especialista em línguas indo-europeias.

A carreira em Paris

Em 1881, Saussure se estabeleceu em Paris e começou a lecionar na École Pratique des Hautes Études.

Ministrou cursos sobre sânscrito, gótico, antigo alto-alemão, gramática comparada e outras línguas indo-europeias.

Permaneceu na capital francesa por aproximadamente dez anos. O período parisiense foi importante tanto para sua carreira quanto para a formação de outros linguistas.

Entre os estudiosos que acompanharam suas aulas estava Antoine Meillet, que se tornaria um dos principais nomes da Linguística histórica francesa.

Saussure também participou da Sociedade de Linguística de Paris e publicou artigos, resenhas e notas especializadas.

Sua capacidade de ensino era reconhecida pelos estudantes. Os relatos destacam a clareza de suas explicações, a precisão de suas análises e sua habilidade para formular novas questões diante de problemas aparentemente conhecidos.

Por que Saussure retornou à Suíça?

Em 1891, aos 33 anos, Saussure deixou Paris e retornou a Genebra. A decisão surpreendeu alguns colegas franceses, pois ele já havia conquistado uma posição importante no ambiente acadêmico parisiense.

O retorno parece ter envolvido fatores familiares e profissionais. A Universidade de Genebra ofereceu-lhe condições para continuar o ensino e criou uma posição adequada à sua especialização.

Inicialmente, lecionou sânscrito e línguas indo-europeias. Posteriormente, também ministrou cursos de gramática comparada, fonologia, grego, latim e linguística.

Em 1896, foi nomeado professor ordinário da Universidade de Genebra, consolidando sua carreira acadêmica na cidade natal.

Casamento e vida familiar

Em 1892, Saussure se casou com Marie Faesch, pertencente a uma tradicional família suíça.

O casal teve três filhos:

  • Jacques de Saussure;
  • Raymond de Saussure;
  • André de Saussure.

Raymond tornou-se médico e psicanalista, participando posteriormente da organização institucional da Psicanálise europeia.

A vida familiar de Saussure dividia-se entre Genebra e a residência localizada em Vufflens, no cantão de Vaud.

Apesar de sua crescente reputação acadêmica, ele mantinha uma vida pública relativamente discreta e concentrava grande parte de sua energia no ensino, na leitura e na elaboração de pesquisas que muitas vezes permaneciam inacabadas.

O desafio de publicar suas próprias ideias

Um dos aspectos mais curiosos da trajetória de Saussure foi sua dificuldade para concluir e publicar textos.

Ele possuía um nível elevado de exigência intelectual e frequentemente considerava que suas reflexões ainda não estavam suficientemente desenvolvidas.

Cartas e manuscritos revelam que começava projetos, reformulava conceitos, interrompia argumentos e hesitava diante da publicação.

Em uma correspondência, chegou a mencionar sua “aversão doentia à pena”, referindo-se ao sofrimento provocado pelo processo de redação.

Como resultado, publicou relativamente pouco durante a vida. Sua produção conhecida era formada principalmente pelo estudo sobre as vogais indo-europeias, pela tese de doutorado e por artigos especializados.

O contraste é significativo: um dos pensadores mais influentes da Linguística moderna tornou-se mundialmente conhecido por um livro que não escreveu diretamente.

Os cursos de Linguística Geral

A partir de 1907, Saussure passou a ministrar na Universidade de Genebra uma disciplina de Linguística Geral.

Foram oferecidos três cursos:

  • Primeiro curso: 1907;
  • segundo curso: 1908–1909;
  • terceiro curso: 1910–1911.

Nessas aulas, Saussure procurou discutir questões fundamentais:

  • qual deveria ser o objeto da Linguística;
  • como distinguir língua, linguagem e fala;
  • como funciona um signo linguístico;
  • por que os valores das palavras dependem de relações;
  • como estudar um sistema em determinado momento;
  • como compreender as mudanças ocorridas no tempo.

Saussure deixou apenas notas fragmentárias dessas aulas. Grande parte do conteúdo foi preservada nos cadernos dos estudantes.

Linguagem, língua e fala

Uma das distinções mais conhecidas da tradição saussuriana envolve os conceitos de linguagem, língua e fala.

A linguagem corresponde à capacidade humana ampla de produzir e compreender diferentes formas de comunicação verbal.

A língua é o sistema social compartilhado por uma comunidade. Ela inclui regras, oposições e convenções que possibilitam a comunicação entre seus participantes.

A fala corresponde às realizações concretas dos indivíduos: pronúncias, combinações, escolhas vocabulares e enunciados produzidos em situações específicas.

Distinção fundamental

Linguagem: capacidade humana geral.
Língua: sistema social compartilhado.
Fala: realização individual e concreta.

Essa divisão permitia delimitar um objeto específico para a Linguística: o estudo sistemático da língua.

O signo linguístico

Para explicar o funcionamento da língua, o Curso de Linguística Geral apresenta o signo linguístico como a união de duas faces:

  • Significante: a imagem sonora ou forma percebida da palavra;
  • significado: o conceito associado a essa forma.

Ao ouvir a palavra “árvore”, não recebemos a árvore física dentro da mente. Reconhecemos uma sequência sonora e a relacionamos a um conceito compartilhado socialmente.

Significante e significado não existem como unidades independentes dentro da língua. Eles formam conjuntamente o signo.

A comparação clássica é com uma folha de papel: não é possível cortar uma face sem cortar também a outra.

A arbitrariedade do signo

Saussure ficou conhecido pela afirmação de que a relação entre significante e significado é arbitrária.

Isso não significa que cada pessoa possa inventar livremente as palavras. Significa que não existe uma ligação natural obrigatória entre determinado conceito e determinada sequência sonora.

O mesmo animal é chamado de:

  • cão, em português;
  • dog, em inglês;
  • chien, em francês;
  • Hund, em alemão.

Nenhuma dessas formas é naturalmente exigida pelo animal. A associação é construída e transmitida socialmente dentro de cada comunidade.

Depois de estabelecida, porém, a convenção não pode ser modificada individualmente a qualquer momento, pois depende do uso coletivo.

Imutabilidade e mutabilidade da língua

A língua apresenta uma aparente contradição: é ao mesmo tempo resistente e aberta à mudança.

Ela é relativamente imutável para o indivíduo porque nenhum falante consegue alterar sozinho todas as regras e palavras de sua comunidade.

Ao mesmo tempo, é mutável ao longo da história, pois a pronúncia, o vocabulário, os significados e as estruturas gramaticais se transformam de geração em geração.

É nesse contexto que se encontra a ideia expressa pela frase:

Mudança linguística

O tempo altera todas as coisas; não existe razão para que a língua escape a essa lei universal.

A língua não muda porque seus falantes decidiram coletivamente substituí-la de uma só vez. A transformação resulta do uso contínuo, das relações sociais, dos contatos entre comunidades e da transmissão histórica.

Sincronia e diacronia

Saussure também distinguiu duas maneiras de estudar os fenômenos linguísticos.

  • Sincronia: análise da língua em determinado estado ou período;
  • diacronia: estudo das mudanças ocorridas ao longo do tempo.

Uma pesquisa sincrônica pode descrever como os verbos funcionam no português contemporâneo.

Uma pesquisa diacrônica pode examinar como determinadas formas verbais do latim se transformaram até chegar ao português.

A distinção não elimina a relação entre presente e história. Ela esclarece que cada perspectiva formula perguntas e utiliza métodos diferentes.

Saussure ajudou a valorizar a análise sincrônica em um período no qual grande parte da Linguística acadêmica estava concentrada na reconstrução histórica.

O valor linguístico

Uma palavra não possui valor apenas por apontar para determinado objeto ou conceito. Seu funcionamento depende também das relações que mantém com outras palavras do sistema.

O valor de uma unidade é estabelecido pelas diferenças e oposições existentes dentro da língua.

Por exemplo, os termos “carneiro”, “ovelha” e “cordeiro” não se organizam exatamente da mesma maneira que seus equivalentes em todas as outras línguas.

Traduzir uma palavra não significa apenas encontrar outra que designe um objeto semelhante. É preciso considerar as relações semânticas construídas em cada sistema.

Ideia central

Na língua, uma unidade vale por aquilo que a diferencia das demais.

Relações sintagmáticas e associativas

As unidades linguísticas estabelecem diferentes tipos de relação.

As relações sintagmáticas aparecem entre elementos combinados em uma sequência.

Na expressão “os alunos estudaram”, cada palavra ocupa uma posição e se relaciona com as outras dentro do enunciado.

As relações chamadas inicialmente de associativas, posteriormente aproximadas das relações paradigmáticas, ligam elementos que poderiam ocupar posições semelhantes.

No lugar de “alunos”, poderíamos empregar:

  • professores;
  • pesquisadores;
  • jovens;
  • crianças.

A língua funciona, portanto, por combinações efetivamente realizadas e por possibilidades de substituição.

Saussure e a Semiologia

Saussure imaginou a criação de uma ciência mais ampla dedicada ao estudo dos signos na vida social.

Essa ciência recebeu o nome de Semiologia. A Linguística faria parte dela porque a língua é um dos sistemas de signos utilizados pelas sociedades.

A proposta influenciou pesquisas sobre:

  • literatura;
  • publicidade;
  • moda;
  • cinema;
  • fotografia;
  • rituais sociais;
  • meios de comunicação;
  • produção cultural.

No século XX, diferentes tradições desenvolveram os termos Semiologia e Semiótica. Embora possam apresentar aproximações, não devem ser tratados como conceitos absolutamente idênticos em todos os autores.

Os estudos sobre anagramas

Entre aproximadamente 1906 e 1909, Saussure desenvolveu pesquisas pouco conhecidas durante sua vida sobre possíveis repetições sonoras em poemas antigos.

Ele investigava a hipótese de que poetas gregos e latinos distribuíam nos versos sons relacionados a determinados nomes ou palavras fundamentais.

Preencheu numerosos cadernos com combinações, fragmentos e tentativas de análise. Entretanto, não conseguiu estabelecer uma demonstração que considerasse plenamente satisfatória.

Por isso, não publicou o projeto. Os manuscritos foram estudados posteriormente por Jean Starobinski, que apresentou parte deles em Les mots sous les mots.

A pesquisa revela tanto a criatividade de Saussure quanto seu rigor: ele preferia abandonar uma hipótese a publicá-la sem evidências suficientes.

A publicação do Curso de Linguística Geral

Saussure morreu sem publicar um livro que reunisse sistematicamente suas ideias sobre Linguística Geral.

Depois de sua morte, Charles Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de Albert Riedlinger, decidiram reconstruir o conteúdo dos cursos.

Como os organizadores não haviam acompanhado integralmente todas as aulas, recorreram a cadernos de estudantes e a fragmentos disponíveis.

O Curso de Linguística Geral foi publicado em 1916, três anos depois da morte de Saussure.

Os editores organizaram os materiais em uma sequência mais sistemática e contínua do que provavelmente possuíam nas aulas originais.

Por isso, a obra deve ser lida com atenção: ela transmite ideias relacionadas ao ensino de Saussure, mas também apresenta escolhas editoriais realizadas por Bally e Sechehaye.

Por que o Curso precisa ser lido criticamente?

Durante grande parte do século XX, o Curso de Linguística Geral foi tratado como uma representação direta e completa do pensamento de Saussure.

A descoberta e o estudo de outros manuscritos demonstraram que a situação era mais complexa.

Algumas formulações do livro resultam da combinação de anotações produzidas em anos diferentes. Outras receberam dos editores uma organização mais definida do que aquela encontrada nos registros originais.

Pesquisadores como Robert Godel, Rudolf Engler e Tullio De Mauro compararam o texto publicado com cadernos de estudantes e manuscritos do próprio Saussure.

Esses estudos não retiram a importância do Curso, mas mostram que existem diferenças entre:

  • o Saussure histórico;
  • os manuscritos deixados pelo professor;
  • as aulas registradas pelos estudantes;
  • o livro organizado em 1916;
  • as interpretações estruturalistas posteriores.

Os problemas de saúde e o afastamento

Nos últimos anos, a saúde de Saussure tornou-se frágil. Em 1912, foi obrigado a interromper suas atividades docentes.

Retirou-se para a residência da família em Vufflens-sur-Morge, no cantão de Vaud.

As fontes nem sempre oferecem uma descrição médica precisa de sua enfermidade. Portanto, é mais responsável evitar diagnósticos retrospectivos que não possam ser comprovados documentalmente.

Seu afastamento ocorreu quando ainda tinha pouco mais de cinquenta anos e muitos de seus projetos permaneciam incompletos.

A doença impediu que retomasse os cursos ou transformasse as reflexões acumuladas em uma obra final revisada por ele próprio.

Como morreu Ferdinand de Saussure?

Ferdinand de Saussure morreu em 22 de fevereiro de 1913, em Vufflens-sur-Morge, na Suíça.

Tinha 55 anos.

Sua morte provocou manifestações de reconhecimento entre antigos alunos, colegas e especialistas em línguas indo-europeias.

Antoine Meillet publicou um texto em sua memória, destacando a originalidade das ideias apresentadas por Saussure ainda na juventude e lamentando que seus talentos não tivessem produzido um conjunto maior de publicações.

O reconhecimento mundial mais amplo surgiria depois, especialmente a partir da publicação do Curso de Linguística Geral, em 1916.

Falecimento

Data: 22 de fevereiro de 1913
Local: Vufflens-sur-Morge, Suíça
Idade: 55 anos

O legado de Saussure

As ideias associadas a Saussure influenciaram várias gerações de linguistas e pesquisadores.

O Estruturalismo linguístico desenvolveu-se em diferentes centros, incluindo as escolas de Genebra, Praga e Copenhague.

Nas Ciências Humanas, suas propostas foram retomadas, modificadas ou criticadas por autores como:

  • Roman Jakobson;
  • Louis Hjelmslev;
  • Émile Benveniste;
  • Claude Lévi-Strauss;
  • Roland Barthes;
  • Algirdas Julien Greimas;
  • Jacques Lacan;
  • Jacques Derrida.

Esses pensadores não apenas repetiram Saussure. Cada um reinterpretou seus conceitos de acordo com novos problemas e diferentes áreas de pesquisa.

A importância do linguista suíço permanece na proposta de estudar a língua como um sistema relacional, social e historicamente transmitido.

Linha do tempo de Ferdinand de Saussure

  • 1857: nasce em Genebra, em 26 de novembro.
  • Década de 1870: inicia estudos de grego, latim, alemão e sânscrito.
  • 1874: conclui um ensaio juvenil sobre raízes linguísticas.
  • 1875: matricula-se em cursos de Física e Química na Universidade de Genebra.
  • 1876: transfere-se para a Universidade de Leipzig.
  • 1878: conclui seu estudo sobre o sistema vocálico indo-europeu.
  • 1879: publica o Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes.
  • 1880: conclui o doutorado na Universidade de Leipzig.
  • 1881: publica sua tese e inicia a carreira docente em Paris.
  • 1891: retorna a Genebra para ensinar na universidade.
  • 1892: casa-se com Marie Faesch.
  • 1896: torna-se professor ordinário da Universidade de Genebra.
  • 1907: ministra seu primeiro curso de Linguística Geral.
  • 1908–1909: ministra o segundo curso.
  • 1910–1911: ministra o terceiro curso.
  • 1912: afasta-se da docência por problemas de saúde.
  • 1913: morre em Vufflens-sur-Morge, em 22 de fevereiro.
  • 1916: é publicado postumamente o Curso de Linguística Geral.
  • 1922: é publicada uma coletânea de seus trabalhos científicos.

Bibliografia das principais publicações de Ferdinand de Saussure

A bibliografia saussuriana exige uma distinção importante: algumas obras foram publicadas diretamente pelo linguista durante sua vida; outras foram organizadas postumamente a partir de cursos, manuscritos, correspondências e cadernos.

Publicações realizadas durante a vida de Saussure

  • Essai d’une distinction des différents a indo-européens — artigo publicado em 1877.
  • Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes — Leipzig: B. G. Teubner, 1879.
  • De l’emploi du génitif absolu en sanscrit — Genebra: Jules-Guillaume Fick, 1881.
  • Un point de la phonétique des consonnes en indo-européen — artigo publicado em 1887.
  • Accentuation lituanienne — estudo publicado em 1896.
  • Artigos, resenhas, comunicações e notas filológicas publicados em revistas especializadas entre as décadas de 1870 e 1900.

Publicações póstumas fundamentais

  • Cours de linguistique générale — organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye, com colaboração de Albert Riedlinger. Lausanne e Paris: Payot, 1916.
  • Recueil des publications scientifiques de Ferdinand de Saussure — organizado por Charles Bally e Léopold Gautier. Lausanne e Genebra: Payot, 1922.
  • Les sources manuscrites du Cours de linguistique générale de F. de Saussure — estudo e edição das fontes por Robert Godel. Genebra: Droz, 1957.
  • Cours de linguistique générale: édition critique — edição comparativa organizada por Rudolf Engler, publicada em volumes a partir de 1967.
  • Les mots sous les mots: les anagrammes de Ferdinand de Saussure — manuscritos estudados e apresentados por Jean Starobinski. Paris: Gallimard, 1971.
  • Saussure’s Third Course of Lectures on General Linguistics (1910–1911) — edição baseada nos cadernos de Émile Constantin, organizada por Eisuke Komatsu. Oxford: Pergamon, 1993.
  • Phonétique: il manoscritto di Harvard Houghton Library bMS Fr 266 (8) — edição de Maria Pia Marchese. Pádua: Unipress, 1995.
  • Écrits de linguistique générale — edição de Simon Bouquet e Rudolf Engler. Paris: Gallimard, 2002.
  • Anagrammes homériques — edição de Pierre-Yves Testenoire. Limoges: Lambert-Lucas, 2013.
  • Une vie en lettres, 1866–1913 — correspondência editada por Claudia Mejía Quijano, 2014.

Principais edições brasileiras

  • SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix.
  • SAUSSURE, Ferdinand de. Escritos de Linguística Geral. Organização e edição de Simon Bouquet e Rudolf Engler. São Paulo: Cultrix.

O ano e a edição devem ser conferidos no exemplar efetivamente utilizado, pois o Curso de Linguística Geral recebeu numerosas reimpressões, traduções e edições críticas.

Referências bibliográficas e fontes consultadas

Este artigo foi elaborado a partir de fontes institucionais, documentos históricos, edições das obras e estudos acadêmicos dedicados à vida e ao pensamento de Ferdinand de Saussure.

  • UNIVERSITÉ DE GENÈVE. L’homme qui aimait les langues. Campus, dossier sobre Ferdinand de Saussure. Disponível em: Universidade de Genebra .
  • UNIVERSITÉ DE GENÈVE. Ferdinand de Saussure, le linguiste qui n’osait pas écrire. Disponível em: Universidade de Genebra .
  • UNIVERSITÉ DE GENÈVE. À la recherche du cours perdu. Disponível em: Universidade de Genebra .
  • MEILLET, Antoine. Nécrologie: M. Ferdinand de Saussure. Annuaire de l’École pratique des hautes études, 1913–1914, p. 115–123. Disponível em: Persée .
  • BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE. Ferdinand de Saussure: dados de autoridade e catálogo bibliográfico. Disponível em: Bibliothèque nationale de France .
  • SAUSSURE, Ferdinand de. Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes. Leipzig: B. G. Teubner, 1879. Edição digital disponível em: Gallica .
  • SAUSSURE, Ferdinand de. De l’emploi du génitif absolu en sanscrit. Genebra: Jules-Guillaume Fick, 1881. Edição digital disponível em: Internet Archive .
  • SAUSSURE, Ferdinand de. Cours de linguistique générale. Publicado por Charles Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de Albert Riedlinger. Lausanne e Paris: Payot, 1916.
  • SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix.
  • JOSEPH, John E. Saussure. Oxford: Oxford University Press, 2012.
  • CULLER, Jonathan. Saussure. London: Fontana, 1976.
  • DE MAURO, Tullio. Notas e introdução crítica ao Cours de linguistique générale. Paris: Payot, 1967.
  • GODEL, Robert. Les sources manuscrites du Cours de linguistique générale de F. de Saussure. Genebra: Droz, 1957.
  • STAROBINSKI, Jean. Les mots sous les mots: les anagrammes de Ferdinand de Saussure. Paris: Gallimard, 1971.
  • BOUQUET, Simon; ENGLER, Rudolf (orgs.). Écrits de linguistique générale. Paris: Gallimard, 2002.

Para trabalhos universitários, recomenda-se informar a edição exata do Curso de Linguística Geral utilizada e distinguir as afirmações presentes no livro de 1916 daquelas encontradas nos manuscritos, nos cadernos dos alunos e nas edições críticas posteriores.

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