Como Joana d’Arc morreu? Entenda por que ela foi condenada à fogueira
Quase seis séculos depois de sua morte, Joana d’Arc continua ocupando museus, livros e exposições. Justamente neste fim de semana, em setembro de 2026, cidades francesas diretamente relacionadas à sua história, como Orléans, Rouen e Domrémy, promovem atividades durante as Jornadas Europeias do Patrimônio. Poucas personagens medievais continuam tão presentes no imaginário contemporâneo. Mas você se lembra de como Joana d’Arc morreu?
Resposta correta: C) Queimada.
Joana d’Arc foi condenada e executada na fogueira em Rouen,
na França, em 30 de maio de 1431.
É provável que muita gente saiba responder “na fogueira” mesmo sem conhecer os acontecimentos que levaram até aquele momento. A imagem de Joana d’Arc sendo queimada tornou-se uma das cenas mais conhecidas da História medieval.
O problema é que, quando contamos apenas o final, perdemos justamente aquilo que torna sua trajetória tão extraordinária.
Poucos anos antes de sua execução, Joana era uma jovem de origem rural, nascida por volta de 1412 em Domrémy, uma pequena localidade no nordeste do reino da França.
Quando ela nasceu, franceses e ingleses estavam envolvidos naquele longo conjunto de conflitos que posteriormente seria conhecido como Guerra dos Cem Anos.
E já podemos esclarecer uma curiosidade: apesar do nome, a Guerra dos Cem Anos não durou exatamente cem anos. Costuma-se situá-la entre 1337 e 1453, com diferentes fases, tréguas e retomadas de combates.
No início do século XV, a situação política francesa era particularmente complicada. Parte do território estava sob domínio inglês e havia ainda uma guerra civil entre grupos franceses. Os borguinhões, por exemplo, mantinham naquele momento uma aliança com os ingleses.
Portanto, não era simplesmente uma partida de “França contra Inglaterra” com dois lados perfeitamente definidos. Como geralmente acontece na História, a realidade era mais bagunçada do que o resumo do livro didático.
Foi nesse cenário que apareceu Joana.
Segundo os depoimentos que ela própria daria posteriormente durante seu julgamento, ainda adolescente começou a afirmar que ouvia vozes de origem divina. Entre elas estariam São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida.
Joana dizia ter recebido uma missão: auxiliar os franceses, libertar Orléans do cerco inglês e conduzir o delfim Carlos até Reims, onde deveria ser coroado rei.
Parece uma proposta improvável para uma jovem camponesa sem posição política ou militar.
E era mesmo.
Ainda assim, em 1429, ela conseguiu chegar até Carlos, o futuro Carlos VII, em Chinon. Depois de ser examinada por autoridades religiosas e integrantes da corte, recebeu permissão para acompanhar as forças que se dirigiam a Orléans.
A participação de Joana na campanha ocorreu em um momento decisivo. Orléans estava cercada pelos ingleses desde 1428.
Segundo material histórico da cidade de Orléans , Joana entrou na cidade em 29 de abril de 1429. Em 7 de maio, as forças francesas conquistaram a fortificação das Tourelles e, no dia seguinte, os ingleses abandonaram o cerco.
A vitória teve enorme importância militar e simbólica.
Até então, as forças ligadas a Carlos atravessavam uma situação bastante difícil. A recuperação de Orléans ajudou a modificar o ritmo da campanha e aumentou o prestígio de Joana.
Aqui vale uma precisão histórica.
Joana d’Arc “comandava o exército francês”? Essa expressão aparece frequentemente em biografias e materiais populares, mas simplifica sua função. Ela acompanhou tropas, participou de operações militares, incentivou combatentes e exerceu enorme influência sobre a campanha, mas havia comandantes profissionais e nobres responsáveis pelas forças francesas. Sua importância militar não depende de imaginá-la como a única comandante de todo o exército.
Depois de Orléans, as forças francesas conquistaram novas posições. Joana insistia em outro objetivo que considerava fundamental: levar Carlos até Reims.
Isso acontecia porque a coroação realizada naquela cidade possuía grande importância para a legitimidade dos reis franceses.
Em 17 de julho de 1429, Carlos foi efetivamente coroado como Carlos VII na Catedral de Reims.
A jovem que poucos meses antes era praticamente desconhecida estava presente em um dos acontecimentos políticos mais importantes do reino.
A trajetória vitoriosa, porém, não duraria muito.
Em 23 de maio de 1430, durante combates próximos a Compiègne, Joana foi capturada por forças borguinhesas.
Os borguinhões eram franceses, mas naquele momento estavam aliados aos ingleses. Depois de um período de cativeiro, Joana acabou entregue aos seus adversários.
Ela foi levada para Rouen, cidade que estava sob domínio inglês.
É aí que começa uma das partes mais estudadas de sua história: o julgamento de 1431.
Temos uma quantidade incomum de documentação sobre esse processo. As atas registraram perguntas feitas pelos juízes e respostas atribuídas a Joana, permitindo que historiadores acompanhem muitos detalhes do julgamento.
Uma tradução de parte dessa documentação medieval pode ser consultada no Medieval Sourcebook da Fordham University .
O processo era formalmente religioso e foi presidido por Pierre Cauchon, bispo de Beauvais.
Mas separar completamente religião e política naquele caso seria bastante enganoso.
Joana havia participado diretamente da campanha que fortaleceu Carlos VII e prejudicou os interesses ingleses. Julgá-la como alguém que agia contra a fé também enfraquecia simbolicamente a legitimidade daquilo que ela dizia ter realizado por inspiração divina.
O Ministério da Justiça da França conserva um amplo material explicativo sobre o processo, seus interrogatórios e as acusações apresentadas contra Joana.
Entre os assuntos investigados estavam suas visões, as vozes que dizia ouvir, sua obediência à autoridade da Igreja e até sua utilização de roupas masculinas.
É comum encontrar resumos dizendo simplesmente que Joana foi condenada como “bruxa”.
A história é mais complexa.
Questões relacionadas a suposta feitiçaria apareceram durante o interrogatório, mas o processo girou sobretudo em torno de acusações religiosas como heresia, revelações consideradas suspeitas, desobediência e outros pontos examinados pelos teólogos.
Em maio de 1431, Joana assinou uma abjuração.
As circunstâncias e até o conteúdo exato que ela compreendeu naquele momento seriam posteriormente questionados durante a investigação que revisou seu julgamento.
Poucos dias depois, os juízes consideraram que ela havia retornado aos comportamentos anteriormente condenados. Passou então a ser tratada como “relapsa”, ou seja, alguém que teria voltado ao erro depois de renunciá-lo.
Essa classificação tinha consequências gravíssimas.
Em 30 de maio de 1431, Joana foi levada à Place du Vieux-Marché, em Rouen.
Ali foi entregue ao poder secular e executada na fogueira.
A Prefeitura de Rouen registra que Joana foi queimada viva naquele local em 30 de maio de 1431.
Ela tinha aproximadamente 19 anos.
Por isso, diante das alternativas da nossa pergunta, “queimada” é a resposta historicamente correta.
Talvez alguém observe a alternativa D, “asfixiada”, e pergunte: mas uma pessoa numa fogueira não pode morrer também por causa da fumaça?
Fisiologicamente, a exposição à fumaça e ao calor pode evidentemente contribuir para uma morte em incêndios. Mas não temos como reconstruir com precisão médica o mecanismo terminal da morte de Joana.
A pergunta pede a forma histórica de execução, e os documentos e registros históricos são claros nesse ponto: ela foi condenada à fogueira.
Por isso, “asfixiada” não é o gabarito adequado.
Existe ainda outro detalhe bastante marcante.
Depois da execução, os restos de Joana foram novamente consumidos pelo fogo e suas cinzas foram lançadas no rio Sena.
Material histórico oficial da cidade de Rouen registra que essa dispersão ocorreu depois do suplício.
Isso ajuda a explicar por que não existe um túmulo com os restos mortais de Joana d’Arc que possa ser visitado atualmente.
Mas a história não terminou em 1431.
Cerca de vinte e cinco anos depois, as circunstâncias de sua condenação foram oficialmente reexaminadas.
A situação política da França já havia mudado bastante. Rouen havia retornado ao controle francês e Carlos VII estava em uma posição muito mais sólida.
Foi aberto um novo processo que reuniu documentos e depoimentos de pessoas que haviam conhecido Joana ou participado dos acontecimentos.
Em 7 de julho de 1456, o julgamento que levara à sua condenação foi declarado nulo.
O Vaticano registra que o chamado Processo de Nulidade terminou com uma sentença que anulou a condenação de 1431.
É uma reviravolta impressionante.
A mulher que havia sido oficialmente condenada como herege acabou tendo aquela sentença invalidada pela própria estrutura eclesiástica.
Séculos depois aconteceria outra transformação.
Joana foi beatificada em 1909 e canonizada pela Igreja Católica em 1920, durante o pontificado de Bento XV.
Em outras palavras, uma jovem condenada por um tribunal eclesiástico no século XV acabou reconhecida como santa quase quinhentos anos depois.
Uma sequência importante para guardar: Joana d’Arc foi condenada e executada em 1431; sua condenação foi anulada em 1456; e ela foi canonizada em 1920. São três momentos diferentes da história e não devem ser confundidos.
Tudo isso ajuda a entender por que Joana d’Arc permanece uma personagem tão fascinante.
Sua trajetória reúne religião, guerra, política, identidade nacional, relações de gênero e até questões sobre a maneira como construímos a memória histórica.
Ela também virou personagem de pinturas, poemas, romances, filmes, peças de teatro, óperas e jogos eletrônicos.
E essa memória continua sendo reconstruída.
Justamente nos dias 19 e 20 de setembro de 2026, durante as Jornadas Europeias do Patrimônio, o Centre Jeanne d’Arc, em Orléans , promoveu atividades voltadas à forma como a imagem da personagem foi difundida ao longo do tempo.
No mesmo fim de semana, o Historial Jeanne d’Arc, em Rouen , abriu gratuitamente suas instalações ao público.
E em Domrémy-la-Pucelle, a casa natal de Joana d’Arc também recebeu visitas especiais.
Essa permanência é interessante porque a Joana que lembramos hoje não foi construída apenas pelos acontecimentos de sua própria vida.
Cada época também reinterpretou sua história.
Ela já foi representada como santa, mártir, heroína militar, símbolo nacional, jovem rebelde e personagem de obras artísticas bastante diferentes entre si.
Por isso, quando estudamos uma personagem histórica tão famosa, precisamos separar pelo menos duas coisas: a pessoa que viveu no século XV e as imagens que os séculos posteriores construíram sobre ela.
Felizmente, no caso de Joana, temos uma documentação muito rica.
As atas de seu processo registraram extensos interrogatórios. Décadas depois, o processo que anulou sua condenação reuniu depoimentos de dezenas de pessoas que haviam convivido com ela ou acompanhado diferentes momentos de sua trajetória.
Isso permite aos historiadores comparar testemunhos, documentos jurídicos e registros políticos em vez de depender apenas das lendas criadas posteriormente.
E ainda assim existem perguntas sem respostas definitivas.
O que exatamente Joana compreendia por suas “vozes”? Como devemos interpretar suas experiências religiosas? Até que ponto determinadas decisões militares partiram dela ou dos comandantes que a acompanhavam?
História não significa preencher todas as lacunas com certezas.
Em muitos casos, o trabalho do historiador consiste justamente em reconhecer aquilo que os documentos permitem afirmar e aquilo que permanece aberto à interpretação.
Nesse caso, porém, uma coisa não está em dúvida.
Diante da pergunta “Como Joana d’Arc foi morta?”, a resposta correta é C) Queimada.
Mais precisamente, ela foi executada na fogueira na Place du Vieux-Marché, em Rouen, em 30 de maio de 1431.
E agora a resposta deixa de ser apenas uma alternativa marcada numa questão: ela nos conduz a uma jovem envolvida na Guerra dos Cem Anos, à libertação de Orléans, à coroação de Carlos VII, a um julgamento controverso, à anulação da condenação e à construção de uma memória que continua viva quase seiscentos anos depois.
Quer conhecer Joana d’Arc além das versões resumidas dos livros escolares? Uma ótima leitura é Joana d’Arc: a surpreendente história da heroína que comandou o exército francês, da historiadora britânica Helen Castor.
O livro procura reconstruir Joana dentro do próprio século XV, mostrando o contexto político, religioso e militar em que ela viveu, em vez de começar pela personagem lendária que conhecemos hoje. É uma boa escolha para quem quer entender também a Guerra dos Cem Anos e as disputas internas que cercaram sua trajetória.
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Referências
- FRANÇA. MINISTÈRE DE LA JUSTICE. Le procès de Jeanne d’Arc. Material histórico sobre o julgamento de 1431, os interrogatórios, as acusações e o processo que levou à condenação de Joana. Disponível em: Ministério da Justiça da França .
- VILLE DE ROUEN. Plaque mémoire de Jeanne d’Arc. Registro histórico sobre a captura, julgamento e execução de Joana na Place du Vieux-Marché em 30 de maio de 1431. Disponível em: Ville de Rouen .
- VILLE DE ROUEN. Rouen au Moyen Âge. Material sobre a cidade durante a Guerra dos Cem Anos, o domínio inglês e a execução de Joana d’Arc. Disponível em: Ville de Rouen .
- VILLE DE ROUEN. Rouen fête Jeanne d’Arc. Cronologia que registra a libertação de Orléans, coroação de Carlos VII, captura em Compiègne, julgamento, execução e dispersão das cinzas de Joana no Sena. Disponível em: documento histórico da cidade de Rouen .
- VILLE D’ORLÉANS. Fêtes Johanniques — Présentation. Material sobre a chegada de Joana a Orléans em 1429, a tomada das Tourelles e o fim do cerco inglês. Disponível em: Ville d’Orléans .
- VILLE D’ORLÉANS. Jeanne d’Arc — ações educativas. Material histórico e pedagógico sobre a campanha militar, a coroação de Carlos VII e a captura de Joana em Compiègne. Disponível em: Ville d’Orléans .
- FORDHAM UNIVERSITY. The Trial of Joan of Arc, 1431. Tradução e transcrição de documentos do processo medieval, incluindo interrogatórios realizados em Rouen. Disponível em: Medieval Sourcebook .
- VATICANO. Santa Joana d’Arc — Audiência Geral de 26 de janeiro de 2011. Síntese sobre sua trajetória, execução, processo de nulidade de 1456 e canonização em 1920. Disponível em: Vaticano .
- MINISTÈRE DE LA CULTURE — FRANCE. Exposition “Quand Jeanne d’Arc entre dans l’histoire”. Programação das Jornadas Europeias do Patrimônio de 19 e 20 de setembro de 2026 em Orléans. Disponível em: Journées Européennes du Patrimoine .
- MUSÉES D’ORLÉANS. Journées Européennes du Patrimoine — Centre Jeanne d’Arc. Programação realizada nos dias 19 e 20 de setembro de 2026. Disponível em: Musées d’Orléans .
- CASTOR, Helen. Joana d’Arc: a surpreendente história da heroína que comandou o exército francês. Tradução de Cristina Antunes. Belo Horizonte: Gutenberg, 2018. Informações bibliográficas disponíveis em: Google Books .

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