Machado de Assis: quem foi, principais obras, características e importância
Machado de Assis é um daqueles escritores que parecem envelhecer ao contrário. Quanto mais o tempo passa, mais sua obra encontra novos leitores e novas possibilidades de interpretação. Ciúme, aparência social, dinheiro, poder, vaidade, relações humanas e até a maneira como contamos uma história estão no centro de livros escritos no século XIX, mas que continuam surpreendentemente próximos de questões atuais.
Autor de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, Joaquim Maria Machado de Assis construiu uma obra marcada pela ironia, pela observação psicológica e por uma maneira bastante particular de conversar com o próprio leitor.
Mas Machado foi muito mais do que romancista. Escreveu contos, crônicas, poemas, peças de teatro e crítica literária, trabalhou durante décadas no serviço público e participou diretamente da criação da Academia Brasileira de Letras.
Conhecer Machado de Assis, portanto, não significa apenas conhecer um nome importante da literatura brasileira. Significa também observar, por meio da literatura, parte das contradições da sociedade brasileira do século XIX.
Quem foi Machado de Assis?
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. Filho de Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis, passou parte da infância na região do Morro do Livramento.
Sua origem estava distante das elites econômicas que aparecem com frequência em seus romances. O pai era pintor e dourador, enquanto a mãe, de origem açoriana, realizava trabalhos domésticos. Machado perdeu a mãe ainda jovem e teve acesso limitado à educação formal.
Mesmo assim, construiu uma formação intelectual ampla. Aprendeu por meio da leitura, do contato com escritores, jornalistas e tipógrafos e da própria experiência no ambiente cultural do Rio de Janeiro.
Essa trajetória costuma fazer com que Machado seja descrito como autodidata. A palavra ajuda a compreender seu percurso, mas não deve sugerir que sua formação tenha acontecido isoladamente. O jovem escritor esteve inserido desde cedo em redes de sociabilidade ligadas à imprensa e à literatura.
Como Machado de Assis começou a escrever?
Machado começou a publicar muito jovem. Em 1854, quando ainda não havia completado 16 anos, publicou um de seus primeiros trabalhos literários conhecidos.
Pouco depois, passou a trabalhar na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo. Lá conheceu o escritor Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias, que teve importância em seus primeiros anos de formação.
Nos anos seguintes, Machado trabalhou como revisor e passou a colaborar com jornais e revistas. Essa relação com a imprensa seria fundamental em toda a sua trajetória.
Antes de se transformar naquele romancista que todo estudante encontra nas aulas de literatura, Machado foi também um homem de jornal.
Escrevia sobre acontecimentos cotidianos, política, comportamento, teatro e sociedade. Essa prática constante da escrita ajudou a desenvolver uma das características mais marcantes de sua obra: a capacidade de observar pequenos acontecimentos e descobrir neles questões muito maiores.
Machado de Assis e o Brasil do século XIX
Machado viveu entre 1839 e 1908. Isso significa que acompanhou transformações enormes na história brasileira.
Quando nasceu, o Brasil era uma monarquia escravista governada por D. Pedro II. Durante sua vida, acompanhou a Guerra do Paraguai, os debates abolicionistas, a Abolição da Escravidão em 1888 e a Proclamação da República em 1889.
Morreu já no início do século XX, em uma sociedade bastante diferente daquela de sua infância.
Tudo isso aparece em sua literatura, embora muitas vezes de maneira indireta.
Machado raramente transforma seus romances em discursos políticos explícitos. Em vez disso, observa como desigualdades, interesses econômicos, relações de dependência e hierarquias sociais influenciam o comportamento das personagens.
Um dos grandes méritos de Machado está justamente em fazer com que os conflitos sociais apareçam dentro dos gestos, escolhas, silêncios e relações pessoais de suas personagens.
Machado de Assis pertence ao Realismo?
Nos livros didáticos, Machado de Assis costuma aparecer como o principal nome do Realismo brasileiro, e a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, é frequentemente utilizada como marco inicial do movimento no Brasil.
Essa classificação é útil para organizar historicamente a literatura, mas a obra machadiana não cabe perfeitamente dentro de uma única escola literária.
Seus primeiros romances — como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia — apresentam elementos associados à tradição romântica.
A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, porém, ocorre uma transformação evidente na construção narrativa.
A ironia se torna mais sofisticada, os narradores ganham maior complexidade, a estrutura das histórias se torna menos convencional e a investigação psicológica das personagens passa a ocupar posição central.
Por isso, é bastante comum dividir a produção romanesca de Machado em uma primeira fase e uma fase de maturidade. Ainda assim, essa divisão deve ser entendida como ferramenta de estudo, não como uma fronteira absoluta.
Memórias Póstumas de Brás Cubas e a transformação da literatura brasileira
Publicado inicialmente em capítulos na Revista Brasileira, em 1880, e lançado em livro no ano seguinte, Memórias Póstumas de Brás Cubas representa um dos momentos mais importantes da literatura brasileira.
A primeira surpresa já aparece na situação narrativa: quem conta a história está morto.
Brás Cubas escreve suas memórias depois da própria morte. Isso permite ao narrador observar a existência com certo distanciamento e, principalmente, com uma liberdade que um narrador convencional talvez não tivesse.
Mas existe outro detalhe fundamental: Brás Cubas não é exatamente um narrador confiável.
Ele conversa diretamente com o leitor, interrompe a narrativa, faz comentários sobre o próprio livro, manipula informações e tenta conduzir nossa interpretação dos acontecimentos.
Machado transforma, assim, a leitura em uma espécie de jogo.
Não basta acompanhar aquilo que o narrador diz. O leitor precisa também desconfiar dele.
Por que Machado de Assis conversa com o leitor?
Uma das características mais reconhecíveis da literatura machadiana é a relação direta entre narrador e leitor.
Em vários momentos, o narrador interrompe a história para comentar o que acabou de escrever, antecipar críticas, provocar o público ou simplesmente mudar de assunto.
Para quem está acostumado com romances que tentam fazer o narrador desaparecer, isso pode causar estranhamento.
Machado faz justamente o contrário: ele nos lembra o tempo todo de que estamos lendo uma narrativa construída por alguém.
Essa técnica produz um efeito importante. O leitor deixa de ser apenas espectador dos acontecimentos e passa a participar intelectualmente do texto.
Machado parece dizer: “Você tem certeza de que acredita nisso?”
Esse jogo entre autor, narrador, personagem e leitor é uma das razões pelas quais sua obra continua produzindo tantos estudos acadêmicos.
Dom Casmurro e a dúvida sobre Capitu
Publicado em 1899, Dom Casmurro tornou-se provavelmente o romance mais popular de Machado de Assis.
A história é narrada por Bento Santiago, conhecido como Bentinho, que decide reconstruir seu passado e especialmente seu relacionamento com Capitu.
O grande conflito surge quando Bentinho passa a acreditar que Capitu o traiu com seu melhor amigo, Escobar.
Durante muito tempo, uma das perguntas mais repetidas sobre o romance foi: Capitu traiu ou não traiu Bentinho?
A pergunta é divertida e continua movimentando salas de aula. Mas, literariamente, existe uma questão ainda mais interessante.
Tudo o que sabemos sobre Capitu passa pela memória e pela voz de Bentinho.
Não temos acesso a uma versão independente dos acontecimentos.
Em outras palavras, o problema central talvez não seja simplesmente descobrir o que Capitu fez, mas entender como Bentinho constrói uma narrativa para convencer o leitor.
Em Dom Casmurro, o leitor não funciona como um juiz que recebeu todas as provas. Ele recebe principalmente o relato de uma das partes — e precisa decidir até que ponto pode confiar nele.
Capitu traiu Bentinho?
Do ponto de vista estritamente textual, o romance não apresenta uma comprovação definitiva do adultério.
Bentinho interpreta gestos, lembranças e semelhanças físicas como indícios da traição, mas esses elementos chegam ao leitor filtrados por sua própria consciência.
É justamente essa incerteza que mantém a obra viva.
Se Machado tivesse oferecido uma resposta objetiva e incontestável, provavelmente teríamos uma história muito menos interessante.
A ambiguidade transforma o leitor em participante do problema.
E isso explica por que, mais de um século depois, ainda estamos discutindo Capitu.
Quincas Borba e a filosofia do Humanitismo
Outro romance fundamental é Quincas Borba, publicado em livro em 1891.
A obra acompanha Rubião, antigo professor que recebe a herança do filósofo Quincas Borba e acaba envolvido em relações sociais marcadas pelo interesse, pela ambição e pela exploração.
É nesse universo que aparece o chamado Humanitismo, filosofia fictícia criada por Machado.
Sua famosa máxima “Ao vencedor, as batatas” resume de forma irônica uma lógica baseada na competição e na vitória do mais forte.
Não se trata de uma filosofia defendida seriamente pelo escritor. Pelo contrário: Machado constrói uma paródia de determinadas explicações científicas e filosóficas que procuravam aplicar princípios simplificados da competição natural à sociedade humana.
O Humanitismo é engraçado justamente porque leva uma lógica aparentemente racional a consequências absurdas.
Ironia em Machado de Assis
É difícil falar de Machado sem falar de ironia.
Mas ironia não significa apenas fazer piada.
Na literatura machadiana, muitas vezes existe uma distância entre aquilo que o narrador afirma e aquilo que o texto nos permite compreender.
Uma personagem pode tentar demonstrar generosidade enquanto suas ações revelam interesse pessoal. Um narrador pode apresentar determinada atitude como perfeitamente razoável, enquanto o leitor percebe algo moralmente problemático por trás daquela justificativa.
Machado não precisa interromper a história e dizer: “Veja como essa pessoa é hipócrita”.
Ele cria situações em que a própria personagem acaba revelando suas contradições.
Essa é uma das razões pelas quais sua crítica social pode parecer discreta em uma primeira leitura e bastante incisiva quando voltamos ao texto com mais atenção.
A psicologia das personagens machadianas
Outra característica importante é o interesse pela vida interior das personagens.
Machado observa sentimentos que nem sempre são facilmente confessados: inveja, ciúme, vaidade, ressentimento, ambição, medo, desejo de reconhecimento e interesse econômico.
E talvez o mais interessante seja perceber que suas personagens frequentemente constroem justificativas elegantes para comportamentos muito menos nobres.
É algo bastante humano.
Poucas pessoas dizem a si mesmas: “Estou fazendo isso porque sou invejoso”. Em geral, criamos explicações muito mais simpáticas para nossas próprias atitudes.
Machado percebeu esse mecanismo com enorme precisão literária.
Machado de Assis também escreveu contos
Quem conhece apenas os romances ainda conhece apenas uma parte da obra de Machado.
Ele foi também um extraordinário contista.
Textos como O Alienista, A Cartomante, Missa do Galo, Uns Braços, Pai contra Mãe, O Espelho e Teoria do Medalhão estão entre os mais conhecidos.
Nos contos, Machado consegue condensar em poucas páginas problemas psicológicos, sociais e filosóficos bastante complexos.
O Alienista
Em O Alienista, Machado conta a história do médico Simão Bacamarte, que cria a Casa Verde para estudar e tratar pessoas consideradas mentalmente desequilibradas.
O problema começa quando os critérios para determinar quem é ou não “normal” ficam cada vez mais amplos.
A narrativa coloca em discussão questões relacionadas à ciência, ao poder e à definição de normalidade.
A Cartomante
Em A Cartomante, crença, desejo e autoengano aparecem em uma narrativa construída em torno de um triângulo amoroso.
A personagem procura na cartomante aquilo que muitas pessoas procuram em previsões: não necessariamente a verdade, mas uma confirmação daquilo que desejam ouvir.
Pai contra Mãe
Já Pai contra Mãe apresenta de maneira particularmente dura aspectos da sociedade escravista brasileira.
A narrativa expõe como a violência da escravidão estava integrada ao funcionamento cotidiano da sociedade e como a sobrevivência de determinados indivíduos podia depender diretamente da opressão de outros.
Machado de Assis e a escravidão
Durante muito tempo, parte da crítica acusou Machado de não tratar suficientemente das questões raciais e da escravidão.
Estudos posteriores demonstraram que o tema aparece em diferentes lugares de sua obra, muitas vezes integrado à própria estrutura das relações sociais narradas.
Machado viveu praticamente os primeiros cinquenta anos de sua vida em uma sociedade oficialmente escravista.
A escravidão aparece em romances, contos e crônicas, algumas vezes diretamente e em outras ocasiões por meio das relações de dependência econômica e social entre as personagens.
Contos como Pai contra Mãe são particularmente importantes para compreender esse aspecto de sua produção.
Machado de Assis e a Academia Brasileira de Letras
Machado teve participação direta na criação da Academia Brasileira de Letras, fundada oficialmente em 1897.
Ele participou das reuniões preparatórias e foi eleito o primeiro presidente da instituição, função que exerceu por mais de dez anos.
Foi também fundador da cadeira nº 23 e escolheu José de Alencar como patrono.
A ligação foi tão importante que a Academia também se tornou conhecida como Casa de Machado de Assis.
Aqui no Da Aula já temos um conteúdo específico sobre a instituição. Para ampliar o assunto, veja também: Academia Brasileira de Letras: saiba mais .
Machado de Assis e Alfredo Bosi
A obra machadiana produziu uma enorme tradição de estudos críticos.
Entre os intelectuais brasileiros que se dedicaram à interpretação do escritor está Alfredo Bosi, autor de importantes estudos sobre literatura brasileira e sobre o próprio Machado.
Bosi chamou atenção especialmente para o modo como o escritor investigava as relações humanas, a ideologia e as contradições sociais presentes no Brasil do século XIX.
Se você quiser conhecer melhor o crítico, o Da Aula também possui um artigo sobre ele: Quem foi Alfredo Bosi .
Quais são as principais obras de Machado de Assis?
A produção de Machado atravessa diferentes gêneros e momentos de sua carreira. Entre os romances mais conhecidos estão:
- Ressurreição — 1872;
- A Mão e a Luva — 1874;
- Helena — 1876;
- Iaiá Garcia — 1878;
- Memórias Póstumas de Brás Cubas — 1881;
- Quincas Borba — 1891;
- Dom Casmurro — 1899;
- Esaú e Jacó — 1904;
- Memorial de Aires — 1908.
Essa lista, porém, não deve fazer esquecer seus contos e crônicas. Para muitos estudiosos, Machado está entre os grandes mestres do conto em língua portuguesa.
Características da obra de Machado de Assis
Para quem estuda Machado para uma prova, vestibular ou simplesmente deseja começar a reconhecer seu estilo, algumas características aparecem com frequência.
Entre elas estão a ironia, a análise psicológica, a crítica às aparências sociais, os narradores pouco confiáveis, o diálogo direto com o leitor, a ambiguidade e o interesse pelos conflitos entre desejo pessoal e convenções sociais.
Mas decorar essa lista não substitui a leitura.
A literatura machadiana funciona justamente porque essas características não aparecem como fórmulas prontas. Elas surgem dentro da construção dos personagens e da própria maneira de narrar.
Por que Machado de Assis continua atual?
Talvez porque Machado não estivesse interessado apenas nos problemas políticos de sua própria época.
Ele estava interessado também no comportamento humano.
As personagens querem ser admiradas. Sentem ciúme. Tentam preservar a própria reputação. Escondem interesses. Constroem versões favoráveis de si mesmas. Interpretam os acontecimentos de maneira conveniente.
Mudaram as roupas, os meios de comunicação e as formas de relacionamento, mas esses mecanismos continuam bastante reconhecíveis.
É curioso imaginar o que Machado faria com as redes sociais.
Um escritor tão interessado em aparência, reputação, vaidade e construção da própria imagem provavelmente encontraria bastante material por aqui.
É também por isso que cada geração volta a seus livros e encontra perguntas diferentes.
Qual livro de Machado de Assis ler primeiro?
Não existe uma única porta de entrada.
Quem prefere narrativas mais curtas pode começar pelos contos. A Cartomante, O Espelho e O Alienista oferecem uma boa introdução à ironia e ao estilo do autor.
Entre os romances, Dom Casmurro costuma ser bastante acessível por causa do enredo e do conflito em torno de Bentinho e Capitu.
Já Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma excelente escolha para perceber de maneira mais clara as experiências narrativas que tornaram Machado tão inovador.
Depois de alguns textos, acontece algo interessante: você começa a reconhecer o “jeito machadiano” de escrever.
Livro de Machado de Assis para conhecer
Para quem deseja começar ou aprofundar a leitura, uma boa opção é procurar uma edição que reúna alguns dos principais romances ou contos do autor.
Obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba estão disponíveis em diferentes edições, incluindo versões comentadas e edições voltadas para estudantes.
Referências
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Machado de Assis: biografia. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/machado-de-assis/biografia . Acesso em: 25 set. 2026.
BOSI, Alfredo. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010. Disponível em: https://www.academia.org.br/publicacoes/machado-de-assis . Acesso em: 25 set. 2026.
LAFER, Celso. Machado de Assis. Academia Brasileira de Letras. Disponível em: https://www.academia.org.br/artigos/machado-de-assis . Acesso em: 25 set. 2026.
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881.
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 1891.
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 1899.
WIKIPÉDIA. Machado de Assis. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Machado_de_Assis . Acesso em: 25 set. 2026.

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