José Mojica Marins: o terror brasileiro entre cinema, cultura pop e memória
Nos primeiros dias de setembro de 2026, São Paulo voltou a abrir espaço para monstros, vampiros, criaturas fantásticas e outras figuras que normalmente não aparecem nos filmes mais assistidos. A 17ª edição do CineFantasy — Festival Internacional de Cinema Fantástico — reuniu produções de diferentes países e homenageou a atriz e cineasta Liz Marins. O sobrenome talvez já entregue uma parte interessante dessa história: Liz é filha de José Mojica Marins, um dos nomes mais singulares do cinema brasileiro.
Quando pensamos em cinema nacional, é comum que algumas referências apareçam imediatamente: comédias populares, adaptações literárias, Cinema Novo, filmes históricos ou grandes dramas sociais. O terror, entretanto, também faz parte dessa história — e de maneira muito mais antiga e inventiva do que às vezes imaginamos.
É justamente aí que José Mojica Marins ocupa uma posição especial. Nascido em São Paulo, em 1936, Mojica cresceu muito próximo do universo cinematográfico. Seu pai trabalhava em um cinema, e aquele ambiente de projeções, cartazes, personagens e histórias ajudou a formar o interesse do futuro cineasta por imagens e narrativas.
Mais tarde, Mojica transformaria esse interesse em uma carreira construída muitas vezes à margem das estruturas mais tradicionais da produção cinematográfica. Dirigiu, escreveu, produziu e atuou, trabalhando com recursos limitados e desenvolvendo uma linguagem bastante particular. O resultado nem sempre agradou à crítica de sua época, mas produziu algo que talvez seja ainda mais difícil: uma identidade imediatamente reconhecível.
Em 1964, essa identidade ganharia uma de suas formas mais conhecidas com o lançamento de À Meia-Noite Levarei Sua Alma. O filme é frequentemente apontado como um marco fundamental do horror produzido no Brasil e apresentou ao público um agente funerário vestido de preto, de cartola, barba marcante e comportamento profundamente perturbador.
Seu nome era Josefel Zanatas, mas praticamente ninguém se lembraria dele dessa maneira. O cinema brasileiro passaria a conhecê-lo principalmente por seu apelido: Zé do Caixão.
Aqui aparece uma diferença interessante entre criador e criatura. José Mojica Marins era o cineasta e ator. Zé do Caixão era o personagem criado e interpretado por ele. A associação entre os dois tornou-se tão forte que, durante décadas, o público frequentemente se referia ao próprio Mojica pelo nome da personagem.
Dá para entender o motivo. Visualmente, Zé do Caixão parecia ter sido pensado para não passar despercebido. A roupa escura, a cartola, a capa e, principalmente, as unhas extraordinariamente compridas formavam uma silhueta fácil de reconhecer mesmo fora da tela.
Segundo material da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, as unhas — uma das características mais famosas do personagem — tiveram inspiração em Nosferatu, clássico expressionista dirigido por F. W. Murnau e lançado em 1922. É uma daquelas conexões interessantes da história do cinema: um vampiro alemão do período silencioso ajudou a fornecer elementos visuais para um dos personagens mais brasileiros do gênero.
O interessante é perceber que Mojica não simplesmente reproduziu modelos estrangeiros de terror. Ele absorveu referências do gênero e as reorganizou dentro de um imaginário brasileiro, construindo um personagem que acabou adquirindo identidade própria.
Zé do Caixão também não é exatamente o monstro sobrenatural que sua aparência pode sugerir. Em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, ele é apresentado como um homem cruel, violento e profundamente descrente, que despreza diversas crenças religiosas e convenções morais da comunidade onde vive.
Uma de suas obsessões é encontrar uma mulher que considere adequada para gerar o filho que dará continuidade à sua linhagem. A ideia, evidentemente, conduz a personagem a uma sequência de atos violentos e ajuda a construir uma figura que mistura vilão de horror, provocador filosófico e personagem quase caricatural.
Isso talvez explique por que Zé do Caixão conseguiu permanecer por tanto tempo no imaginário popular. Ele não dependia apenas de sustos. Havia uma personalidade exagerada, discursos grandiosos, uma aparência teatral e uma visão particular do mundo. Em alguns momentos, o personagem parece estar menos interessado em conversar com as outras pessoas da história e mais interessado em desafiar diretamente quem está assistindo.
É cinema de terror, claro, mas também existe ali uma boa dose de provocação.
O personagem retornou em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, lançado em 1967. O segundo filme levou ainda mais longe alguns experimentos visuais de Mojica. A maior parte da produção é em preto e branco, mas uma célebre sequência ambientada no inferno rompe essa estética e aparece em cores, recurso bastante expressivo para o período.
Décadas mais tarde, aconteceu algo incomum na história das franquias cinematográficas. Em 2008, Mojica retomou a saga em Encarnação do Demônio. Entre o primeiro filme, de 1964, e o encerramento dessa trilogia haviam se passado 44 anos.
Pense um pouco nisso: um personagem criado quando o Brasil ainda vivia a primeira metade da década de 1960 retornou ao cinema no século XXI interpretado por seu próprio criador. Poucas trajetórias artísticas permitem observar de maneira tão direta a passagem do tempo.
E Zé do Caixão já havia ultrapassado as salas de cinema havia muito tempo. A figura apareceu na televisão, ganhou histórias em quadrinhos, discos e outras manifestações da cultura popular. Aos poucos, tornou-se maior do que qualquer filme específico.
No exterior, a personagem também conquistou seguidores e passou a ser conhecida como Coffin Joe. O reconhecimento internacional ajudou inclusive na reavaliação crítica da produção de Mojica, que durante muito tempo foi tratada por parte da crítica brasileira como cinema precário, estranho ou excessivamente popular.
Hoje esse olhar é bem diferente.
Em 2024, por exemplo, o Instituto Moreira Salles realizou a mostra José Mojica Marins Restaurado, apresentando dez filmes do cineasta recuperados em 4K a partir de materiais originais. O próprio processo de restauração é significativo: preservar um filme significa reconhecer que aquela obra faz parte de uma memória cultural que precisa continuar acessível às próximas gerações.
A Cinemateca Brasileira também tem dedicado espaço à produção de Mojica. Em abril de 2026, exibiu O Estranho Mundo de Zé do Caixão, de 1968, em uma sessão especial. Décadas depois da realização dessas obras, portanto, elas continuam circulando em instituições dedicadas à preservação e à discussão do cinema.
Há ainda outra mudança importante na maneira como enxergamos esse gênero. Durante muito tempo, falar em “cinema fantástico brasileiro” podia soar quase contraditório para quem conhecia apenas uma pequena parte da produção nacional. Horror, fantasia e ficção científica pareciam gêneros essencialmente associados ao cinema estrangeiro.
Mas basta ampliar um pouco o repertório para descobrir que existe uma tradição brasileira bastante rica. Mojica ocupa uma posição pioneira nela, mas não está sozinho. Diferentes gerações de cineastas exploraram monstros, fenômenos sobrenaturais, distopias, lendas populares, ficção científica e outros elementos do fantástico.
Em levantamento da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), À Meia-Noite Levarei Sua Alma foi colocado na primeira posição entre os filmes selecionados para o livro Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais. É um reconhecimento importante para uma obra que nasceu em condições muito diferentes das grandes produções internacionais de terror.
Talvez seja justamente essa uma das lições mais interessantes deixadas por José Mojica Marins. Nem sempre uma linguagem artística precisa nascer de grandes estruturas, orçamentos gigantescos ou modelos perfeitamente consolidados. Em alguns casos, limitações acabam estimulando soluções visuais, narrativas e performáticas que dificilmente surgiriam em produções muito padronizadas.
E então voltamos às famosas unhas.
Uma pergunta aparentemente simples de conhecimentos gerais pode nos levar de um detalhe visual de um personagem até o expressionismo alemão, o desenvolvimento do cinema de horror no Brasil, a produção independente paulistana, a censura, a preservação cinematográfica e a própria formação de nossa cultura popular.
É por isso que estudar cinema não significa apenas memorizar nomes de filmes, diretores e personagens. Filmes são documentos culturais. Eles carregam os medos, valores, conflitos, tecnologias e possibilidades artísticas de uma época.
No caso de José Mojica Marins, carregam também uma cartola, uma capa preta e algumas unhas difíceis de esquecer.
Quer conhecer melhor o cinema fantástico brasileiro?
Uma boa leitura para continuar o assunto é Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais, organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva. A obra reúne textos sobre cem produções brasileiras de horror, fantasia e ficção científica e ajuda a perceber que a história do gênero no país é muito maior do que normalmente aparece nos repertórios mais conhecidos.
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Referências
- AGÊNCIA BRASIL. Festival de cinema fantástico estreia com homenagem a Liz Marins. Publicado em 1º set. 2026. Disponível em: Agência Brasil . Acesso em: 13 set. 2026.
- INSTITUTO MOREIRA SALLES. José Mojica Marins Restaurado. Informações sobre a restauração da obra de Mojica, a trajetória cinematográfica de Zé do Caixão e a trilogia formada por À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e Encarnação do Demônio. Disponível em: Instituto Moreira Salles . Acesso em: 13 set. 2026.
- MUSEU DE ARTE MODERNA DO RIO DE JANEIRO. O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Material da Cinemateca do MAM sobre José Mojica Marins, a criação de Zé do Caixão e as referências visuais utilizadas na composição do personagem. Disponível em: MAM Rio . Acesso em: 13 set. 2026.
- CINEMATECA BRASILEIRA. Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais. Material sobre a publicação organizada por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva e sobre a presença de À Meia-Noite Levarei Sua Alma na história do cinema fantástico brasileiro. Disponível em: Cinemateca Brasileira . Acesso em: 13 set. 2026.
- ITAÚ CULTURAL. Assista a “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, de José Mojica Marins. Material sobre o segundo longa da saga de Zé do Caixão e sua importância para o terror brasileiro. Disponível em: Itaú Cultural . Acesso em: 13 set. 2026.

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